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O novo pacote da Versátil

Luiz Carlos Merten

15 Julho 2011 | 11h31

Outro dia alguém me comentou que ‘Os Irmãos Karamazov’, de Richard Brooks, estava saindo pela Versátil. Recebi o pacote da distribuidora, não apenas com o filme de Brooks adaptado do romance de Dostoievski, mas também com ‘Lenny’, de Bob Fosse, e ‘ Uma Janela para o Amor’, de James Ivory. Sempre ouvi os coleguinhas reclamarem, de Brooks, que teria edulcorado o grande escritor russo, coisa e tal, mas o filme me causou uma impressão muito funda quando o vi pela primeira vez e não duvido que esteja na origem do meu amor pelo cineasta. Havia, inclusive, comprado um livro sobre Brooks que analisa a gênese de cada um de seus projetos Queria ler o que o autor e o próprio Brooks dizem sobre ‘Os Irmãos Karamazov’, mas agora procuro o tal livro e não acho, na balbúrdia que virou minha casa, desde a obra para mudar o piso, antes que começasse o périplo da minha pneumonia. Vou procurar mais um pouco, mas prometo, de qualquer maneira, voltar a ‘Karamazov’. Permitam-me falar sobre os outros dois lançamentos da Versátil. A dupla Ivory/Ismail Merchant (produtor) já vinha ativa há muitos anos quando ambos fizeram a adaptação do livro de E.M. Forster, em 1985. Ivory era um diretor para poucos – seus filmes indianos, sobre a grandeza e a decadência das civilizações – e foram as indicações de ‘A Room with a View’ para o Oscar que lhe deram projeção. Confesso que sempre impliquei com ele, achando-o um sub-Visconti e essa impressão foi acentuada quando o entrevistei – no Hotel des Bains, em Veneza! – e, ingenuamente, olhando para uma das portas que dão acesso ao Grand Salon, disse que conseguia ver Silvana Mangano como a mãe de Tadzio. Ivory surtou e espinafrou Visconti com ódio, dizendo que os elencos internacionais de seus filmes eram um desastre e que a escolha viscontiana de dublar todo mundo depois era uma vergonha. Não sei se isso aumentou meu bode por ele, mas sempre achei Ivory um diretor mole, débil, com uma mise-em-scène pouco (ou nada) vigorosa. Mas me lembro de que gostei de ‘Uma Janela para o Amor’ na época, vendo e reverendo com prazer a história da garota que vai para Florença com uma chaperone (Maggie Smith). Ela sonha ficar num quarto com vista para o rio Arno. O quarto não tem vista, mas, ao cabo de muitas peripécias, Lucy abre uma janela para o amor. Imagino que seja curioso rever o filme hoje, porque o ator que Ivory escolheu para fazer o amor de Lucy, o ‘rude’ Julian Sands, entrou no buraco negro e Daniel Day-Lewis, que ele mais ou menos caricaturiza (existe a palavra?), como o amigo ‘afetado’ (gay?), virou superstar. Mas eu sempre me encantei com Helena Bonham-Carter, muito antes de ela virar a sra. Tim Burton. Helena é ótima, mas em Berlim, este ano, pude comprovar como ela desenvolveu uma persona – de ‘excêntrica’ -, vestindo-se mal e expressando-se com tal exagero que chega a criar certo constrangimento, e tudo isso está de acordo com as personagens que interpreta (e o marido que tem). Minha opinião sobre Ivory melhorou um pouco graças a dois filmes, duas adaptações – ‘Retorno a Howards End’, de novo Forster, e ‘Vestígios do Dia’, de Kazuo Ishiguro -, mas eu ainda guardo carinho pela Florença de ‘Room with a VIew’. É uma coisa que Ivory e Brooks (e o próprio Visconti) tinham em comum. Foram todos adaptadores, baseando a maioria de seus filmes em livros (no caso de Brooks, também peças). Brooks e Visconti são mais ‘autores’ do que Ivory? Creio que sim, mas isso é., claro, material para polêmica, sujeito as controvérsia. Quanto a ‘Lenny’, não dá para falar rapidamente sobre o filme com Dustin Hoffman. Vou voltar ao assunto daqui a pouco.