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Cultura » O novo ‘Bróder’

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Luiz Carlos Merten

22 Abril 2011 | 11h52

Fui ontem rever ‘Bróder’. Não havia muita gente na sala do Arteplex. Aliás, não havia muitas gente em sala nenhuma do complexo. Com a tarde bonita que estava fazendo, acho que quem ficou em Sampa preferiu outras atrações – o Ibirapuera, quem sabe. No encontro com Jeferson De, no Capão, ele me disse que tinha feito mudanças no filme. O tom da fotografia estava mais sombrio, ele diminuiu a música – e suprimiu Jorge Ben da cena inicial, quando o personagem de Caio Blat desce a favela –, aumentou a participação de Cássia Kiss. Essa última é a mudança mais sutil. São planos de gestos, olhares. Tenho de admitir que não me canso de (re)ver ‘Bróder’. Vi quantas vezes o filme? Quatro, cinco? Cássia Kiss me encanta. De onde ela tira a vivência para fazer essas mães pobres? E quando Ailton Graça a puxa para dançar, a dureza das linhas do rosto se afrouxa num meio sorriso. Essa mulher, essa sobrevivente, com certeza ama o seu companheiro. Gosto muito do trio de amigos. Caio Blat, Jonathan Haagensen, Silvio Guindane. De Jonathan e Sílvio gostei desde a primeira vez que vi o filme. Jonathan é incrível. Quando ele desce do carro para ir à benzedeira, só aquela meia dúzia de passos já definem o Jaiminho.  O cara parece um galinho. Narcisista, é óbvio que se acha gostoso. Seu olhar para as mulheres, para o corpo das mulheres, passa a urgência do seu desejo. Mas ele também tem seu lado frágil. A vitória, a convocação para a seleção, paradoxalmente o deixa vulnerável, no desfecho. Sílvio, a quem já amava em ‘De Passagem’, de Ricardo Elias, acerta de novo no tom. É um dos melhores atores de sua geração – será que já descobriram isso? Acho que ele tem menos chances do que seu talento lhe poderia proporcionar. A cena em que seu personagem desaba – problemas de dinheiro, não sabe se quer ficar com a mulher – é muito forte. E o Caio? Achava-o exagerado, havia algo que me incomodava na interpretação. Só ontem percebi a sutileza. Macu talvez seja o personagem mais frágil do trio, mas ele tenta construir uma imagem de fortão – para si e para os outros. É como se ele, o personagem, estivesse representando um papel o tempo todo. É uma coisa difícil de fazer e o Caio faz muito bem. Meu amigo Antônio Gonçalves Filho me disse que estava sem paciência de ver ‘Bróder’. Toninho não aguenta mais a miséria, a violência. Tudo isso está presente em ‘Bróder’, mas esses elementos não são o filme de Jeferson De. Ele olha de ‘dentro’. Vou reproduzir o que me disse o Caio na entrevista que fiz com Cássia (Kiss) e ele, pedindo-lhes que avaliassem a experiência de filmar no Capão Redondo. Caio ficou comovido na pré-estreia do filme quando uma moradora, que perdeu o filho, o abraçou, agradecendo. “Ela me disse que perdeu o filho há duas semanas, numa dessas situações que o filme mostra. Mas ‘Bróder’ não é só a violência. É também a história sussurrada, a vida como ela é, a feijoada. E ela se sentiu retratada na tela, por meio de mim reencontrou o filho. Chorava, mas com um sorriso de felicidade de ponta a ponta na cara.” Acho que são essas coisas que fazem a diferença em ‘Bróder’. Tomara que mais gente descubra o filme do Jeferson.