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Luiz Carlos Merten

28 Maio 2010 | 11h31

Depois de nossa conversa de ontem sobre John Schlesinger, Antônio Gonçalves Filho aproveitou para me atualizar com sua última descoberta. Ele viu – e adorou – ‘O Nono Mandamento’, Strangers When We Meet, de Richard Quine, lançado pela Continental. Toninho ficou espantado, não só com a qualidade do filme, mas também com a honestidade e até audácia intelectual com que Quine abordava o adultério, em 1960. As coisas começavam a mudar, e Quine, modestamente, dava sua contribuição às mudanças que levariam ao arquivamento do Código Hays, em Hollywood. Era muito garoto quando vi ‘O Nono Mandamento’. Logo em seguida, em 1964 – devo ter visto o filme em 1961 ou 62; as produções não chegavam tão rápido, na época – , eu iria começar a cursar arquitetura e sempre me impressionou o uso que Quine faz da casa em construção – como Elia Kazan iria usar a casa inacabada, sem teto, em ‘O Último Magnata’, uns 15 anos mais tarde. Nunca me esqueço do diálogo em que Kirk Douglas explica a Kim Novak como faz a barba, mais exatamente, como resolve o problema de sua famosa ‘covinha’ no queixo. E há a cena terrível em que o amigo canalha dá em cima de Kim, tratando-a como vagabunda, ou convencido de que a mulher casada que ‘dá’ para um homem vai ceder para o seguinte ou tem de dar para todo o mundo. Quine ostenta a reputação de príncipe da comédia, mas era bom de drama, também. Ele foi parceiro de Blake Edwards, a quem empregou como roteirista, antes que o Sr. Julie Andrews virasse o grande diretor que todo mundo sabe. E Quine era apaixonado por Kim Novak. Ela era linda, a mais ‘carnal’ das estrelas de Hollywood. E Kim, tratada como canastrona, era boa atriz, em filmes de grandes diretores como Hitchcock (‘Vertigo’), Quine (vários) e Aldrich (‘A Lenda de Lilah Clare’). Há quase 20 anos, Kim despediu-se do cinema em ‘Liebestraum’, como é mesmo que se chamava no Brasil o filme de Mike Figgis? ‘Idílio (ou Atração?) Proibido/a’? ‘O Nono Mandamento’ é bem legal. Uma boa pedida para ‘resgatar’ em DVD.