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Cultura » O nome é… Friedkin

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Luiz Carlos Merten

05 Setembro 2007 | 16h06

Conversei agora pelo telefone com William Friedkin, que estava em Los Angeles. Havia solicitado uma entrevista à distribuidora de Possuídos, mas a resposta veio somente agora. Ainda bem que Friedkin virou uma máquina de notícia e independe de um filme apenas (embora Possuídos/Bug ainda esteja em cartaz). Comentei com ele a sua trajetória irregular, o fato de ter bombado no começo da carreira, depois ter atravessado um período crítico, quando seu talento foi contestado, e hoje ele ter virado quase uma unanimidade, aclamado como diretor de ópera e com prêmios, tipo life achievement, pipocando em vários festivais ao redor do mundo (o próximo vai ser na Grécia, em outubro). Friedkin disse que o que está ocorrendo com ele já havia se verificado com vários outros diretores, também relegados ao esquecimento, mas que terminaram sendo redescobertos. Citou até os casos de Howard Hawks e Alfred Hitchcock, diretores ‘comerciais’ que a crítica, especialmente a francesa, recuperou nos anos 50 e 60. Falamos de ópera (Salomé, de Richard Strauss, em cartaz em Munique), mas o que ele me disse de mais interessante vem agora. Operação França foi relançado nos cinemas dos EUA e está em cartaz, em salas selecionadas, com expressivo sucesso de público e crítica. Cruising (Parceiros da Noite) reestréia nesta sexta-feira. Inicialmente, a versão restaurada do filme deveria ser lançada em DVD, mas a repercussão favorável em Cannes levou a Fox a recolocar o filme nos cinemas. Além da restauração digital de imagem e som, Friedkin recolocou os 14 minutos que haviam sido censurados na época, mas ele diz que Cruising não mudou – o que mudou foi a atitude das pessoas, e da sociedade em geral, em relação ao homossexualismo. O próprio público tem mais abertura hoje para ver coisas que podiam ser consideradas chocantes em 1980. Há quase 30 anos, ele foi acusado de homofobia pelo Village Voice e agora me leu um trecho da nova crítica da publicação, que coloca o filme nas nuvens e diz que estava adiante de sua época e por isso não foi compreendido. Fui pesquisar e a produção de Cruising era da Lorimar. Quem distribuía a empresa no Brasil? Parceiros da Noite vai ser relançado nos cinemas, aqui também? Vai para DVD? Podemos esperar? Quem sabe, depois do sucesso da exibição especial em Cannes, passa no Festival do Rio, ainda este mês, ou na Mostra de São Paulo, no próximo? Um detalhe – perguntei a Friedkin se tinha um mestre e ele não vacilou. Orson Welles. Disse que Welles não era muito bom ator e, como diretor, é irregular, mas Cidadão Kane é, até hoje, 75 anos depois, o máximo de storytelling que o cinema ainda pode oferecer. A fotografia em preto-e-branco de Greg Tolland, segundo Friedkin, é coisa de gênio. Se o filme tivesse sido concluído ontem, como todo o avanço tecnológico, seria difícil imaginar um claro-escuro mais brilhante, ou uma profundidade de campo mais ‘focada’.