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Cultura » ô Nóis Aqui… Traveiz

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Luiz Carlos Merten

22 Setembro 2008 | 11h07

Minha colega Beth Néspoli voltou ontem de Porto Alegre entusiasmada com o novo espetáculo do grupo Oi Nóis Aqui Traveiz, a que assistiu no Porto Alegre em Cena. É o mesmo que foi comentado pelo Luix. É sobre Carlos Marighella e a encenação mostra o guerrilheiro como produto de duas culturas, a afro e a italiana. Beth ficou particularmente impressionada com duas partes do espetáculo – a que reproduz a máquina da repressão do regime militar e a caçada a Marighella, inspirada no célebre ‘Te entrega, Corisco/Eu não me entrego não’, de ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, de Glauber Rocha. Ouvindo a Beth contar sobre o carro montado como tanque de guerra e os soldados que avançavam em formação sobre a multidão – o espetáculo era encenado na rua –, entrei numa viagem no tempo. O relato da Beth me ofereceu a madeleine que necessitava. Infelizmente, não estou podendo ver o espetáculo do Oi Nóis, mas, quem sabe, na próxima vez que for a Porto? O meu relato pode até ser uma bobagem, mas foi uma coisa que me marcou e estava lá, soterrada no meu inconsciente.
Lá pelo final dos anos 60 ou início dos 70, eu atravessava o Parque da Redenção, uma vasta área verde que é mais ou menos o pulmão de Porto. Ia para a Faculdade de Arquitetura, que fica numa extremidade do parque, ou então para o (então) Cinema Avenida, que também fica ali perto. Era de tarde, e inverno. Frio. É uma zona próxima aos quartéis e naquele tempo, não sei se ainda hoje, o parque era muito usado para treinamento militar. Havia esse sujeito, provavelmente um sem-teto – a lembrança é meio confusa –, que dormia num banco de pedra. Eu estava próximo de passar por ele quando irromperam todos aqueles soldados correndo, e armados, e gritando. O sujeito deu um pulo e, ainda sonado, sem saber o que ocorria, ergueu os braços, sem que ninguém tivesse lhe dito ‘Mãos ao alto!’ Eu também tomei um susto, a gente ouvia cada história de desaparecimrento. Não houve nada, nem com ele nem comigo, mas eu guardei aquela imagem como uma metáfora do que estava ocorrendo no País. O povo adormecido, despertando brutalmente da sua alienação. O medo, o Exército como instituição intimidadora. Até hoje me lembro, como imagem da fragilidade humana, daquele sujeito anônimo, que eu não sei quem era, levantando os braços e se colocando à mercê daqueles soldados.
É uma coisa que me marca até hoje. Sempre achei que aquela situação, aquela imagem, dava filme, mas eu, feliz ou infelizmente, escolhi fazer o meu cinema como jornalista, não como realizador. Talvez a imagem, projetada na tela, fosse impactante para os outros como foi para mim. Relatada, não acredito que seja muito forte, e agora tudo se confunde – já estou delirando e o pobre coitado é preso pelos militares, como no episódio de ‘Os Monstros’, de Dino Risi (mas isso não ocorreu). Lembram-se do filme? Ugo Tognazzi e Vittorio Gassman, horrendamente vestidos como policiais, dois gorilas, prendem o inimigo público número um, e o sujeito é um pobre Diabo franzino que eles arrastam sem nenhum esforço. Vou mais longe. Não vi ainda o documentário de Evaldo Mocarzel, meu ex-editor no ‘Caderno 2’, sobre a Brigada Pára-Quedista, tropa de elite do Exército brasileiro. Conversando rapidinho com o Evaldo, na minha festa de aniversário, ele me disse que amigos de esquerda cobraram dele não ter lembrado a atuação do Exército durante a ditadura, mas o tempo agora é outro e um oficial que ele entrevista ainda engatinhava na época do ‘Ame-o ou deixe-o’.
Gostei bastante do outro documentário sobre o PQD, de Guerlherme Coelho, e acho que ele contextualiza o que poderá ser, ou já está sendo, o projeto do ministro Nelson Jobim de transformare o serviço militar em nivelador republicano. Hoje em dia, só quem serve o Exército é pardo, pobre, de periferia – exagero, claro –, mas é gente que não encontra, fora do Exército, muitas outras formas de integração e ascensão social. É isso ou o tráfico, já que o sonho de virar ídolo no futebol é de quanto? Um em um milhão? Por mais que os indicadores sociais apontem para uma melhora na situão do brasileiro, ainda há muita ezxclusão, muita miséria, essa é a verdade. Para completar, nessa série de devaneios deflagrados, qual madeleine, pelo relato de Beth Néspoli – a crítica dela ao espetáculo ‘O Amargo Santo da Purificação’, sobre Marighella, está hoje no ‘Caderno 2’ –, assisti ontem à noite, na TV paga, a um trecho de ‘Nascido para Matar’, justamente a cena em que o instrutor entra na caserna e cospe todos aqueles palavrões sobre os recrutas reunidos pela primeira vez. Kubrick filma num plano-seqüência vertiginoso, enquanto Lee Ermey cospe seu ódio – ‘Aqui não tem racismo, Vocês, brancos, negros, judeus, mexicanos, italianos, são todos m… , mas eu juro que no final do treinamemnto vocês serão homens e máquinas de matar’. Todo Kubrick está presente nessa cena extraordinária. A dissolução da palavra como elo que une e organiza os homens. A desumanização da máquina militar. Acho que é o que fecha o link com aquela imagem que me persegue acho que há uns 40 anos, daquele sujeito, numa tarde, num parque de Porto Alegre…