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Cultura » O niilismo de Bergman

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Luiz Carlos Merten

14 Outubro 2008 | 17h19

Havia recebido pela manhã, aqui na redação do ‘Estado’, um pacote de DVFDs da Imagem, incluindo ‘O Arco’, de Kim Ki-duk, cineasta coreano que me fascina (principalmente em filmes como ‘Casa Vazia’ e ‘Primavera, Verão, Outono, Inverno e Primavera’). Tive de ir correndo em casa para buscar o CD com as fotos da Mostra, que havia esquecido, e me esperava outro pacote, esse da Versátil e com dois filmes de Bergman, ‘Da Vida dos Marionetes’ e ‘Depois do Ensaio’, mais a íntegra de Jean Vigo. Vamos por partes, como diria o esquartejador.
‘Da Vida das Marionetes’ foi o segundo filme que Bergman fez na Alemanha, após o controvertido episódio da sua briga com o Fisco sueco, que o acusava de sonegação de impostos. O primeiro havia sido ‘O Ovo da Serpente’, no qual o grande diretor utilizou a gênese do nazismo para falar sobre a questão do dinheiro. É seu filme em que o assunto se torna mais relevante e onipresente. Na seqüência, Bergman, que se estabelecera em Munique, fez ‘da Vida dos Marionetes’, antes de regressar à Suécia, após pedido formal de desculpas pelo governo do país, para dirigir ‘Fanny e Alexander’. Ao contrário desse último, que provocou verdadeira sensação – e ganhou o Oscar, vários Oscars –, ‘Marionetes’ desconcertou meio mundo. Filmado em austero preto-e-branco, com um prólogo e um epílogo em cores, o filme é duro e difícil, marcado pelo pessimismo do autor, numa das fases mais niilistas de sua vida e carreira. O protagonista é este homem que chega para seu psiquiatra e lhe confessa sua compulsão para matar, mas o médico, mais preocupado em seduzir a mulher do paciente, não lhe dá ouvidos e ele mata uma prostituta. Sem nenhum de seus grandes atores – o elenco é formado por alemães, e atores desconhecidos na época, acho que até hoje –, o filme adota uma estrutura em capítulos, que alterna depoimentos dos amigos (que não estenderam a mão para o trágico herói) e cenas dos últimos dias que antecederam seu crime. Bergman levou ainda mais longe do que em ‘Cenas de Um Casamento’ e ‘Face a Face’ o jogo de acusações de um casal. Até onde me lembro, a cena-chave é o monólogo do amigo do assassino, um homossexual que nunca deixou de sonhar que poderia ter um caso com ele e que dialoga consigo mesmo diante do espelho, descortinando seu vazio emocional e o horror que lhe provoca a deterioração do próprio corpo.
No debate sobre Bergman com que o HSBC comemorou os 90 anos do mestre, lamentei não estar em São Paulo para poder ver, em seguida, a apresentação de ‘Da Vida das Marionetes’ no ciclo que se realizava no conjunto de salas. Pretendo (re)vê-lo agora em DVD, e vai ser interessante, neste momento em que a Mostra também homenageia Bergman, exibindo filmes do começo de sua carreira. Se ‘Marionetes’ foi o último filme do grande artista antes de ‘Fanny e Alexander’, ‘Depois do Ensaio’ foi o primeiro depois (e após ele haver anunciado que nunca mais faria cinema; a propósito, é um telefilme). Talvez seja o filme mais ascético de Bergman, tão despojado que tende à abstração. Nada além do diálogo crispado, durante 75 minutos – o tempo é real – de um diretor de teatro com duas atrizes, após o ensaio de uma peça de Strindberg. O local é o palco e dois atores bergmanianos de carteirinha (Erland Josephsson e Ingrid Thulin), mais a jovem Lena Olin, que se casaria com o diretor Lasse Hallstrom, vivem a situação clássica do cinema de Bergman – a lavagem de roupa suja de personagens que expõem sua ‘dor de dente da alma’, como dizia o próprio artista. Eles falam de teatro e, mesmo quando discutem a arte, ou técnicas, de representação, na verdade estão falando de vida e da aridez emocional que a todos imobiliza. Na minha memória, ‘Marionetes’, embora mais doloroso, é mais vivo, mas acho que os dois lançamentos devem estar na mira dos admiradores de Bergman.