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Luiz Carlos Merten

16 Dezembro 2009 | 10h41

Fui ontem à 2001 da Av. Sumaré para comprar os DVDs que minha amiga secreta, Patrícia Vilhalba, havia pedido – ‘Volver’, de Almodóvar e um Truffaut, escolhi ‘Beijos Proibidos’ -, e descobri que a loja, talvez a rede, está com uma promoção bacana de Natal. Muitos DVDs clássicos, cults, e baratinhos (não estou ganhando nada pelo comercial, que fique claro). Tinha pressa, mas dei uma olhada no balcão onde estão dispostos os DVDs a preços bem acessíveis, e descobri, entre muitos, que saiu o DVD de ‘O Mundo em Seus Braços’. Aleluia! Vou poder falar do meu amado Raoul Walsh. Há dias, zapeando na TV paga, não me lembro que canal estava exibindo ‘Esse Homem É Meu’, um Walsh de 1956, o mesmo ano de ‘A Descarada’ (The Revolt of Mamie Stower), com Jane Russell e Richard Egan. ‘Esse Homem É Meu’ chama-se ‘The King and Four Queens’ no original. O título remete a Shakespeare, mas também tem a ver com o fato de que o astro Clark Gable, que faz o protagonista, era conhecido em Hollywood, na época, como o ‘Rei’. Quando encerrou sua carreira, em 1964, com ‘Um Clarim ao Longe’ – minha primeira crítica, ainda no mural livre da Faculdade de Arquitetura da UFRGS foi sobre esse western -, Walsh ainda viveu mais 16 anos, morrendo somente em 1980. Neste período, escreveu um romance cultuado na França, ‘A Cólera dos Justos’, ou coisa que o valha, que os críticos já reconheciam como sua homenagem ao bardo. ‘Esse Homem É Meu’ mostra o Rei como pistoleiro que busca tesouro enterrado por quatro homens, cujas mulheres, viúvas, ele encontra nesta fazenda perdida no meio do nada. Jo Van fleet, Eleanor Parker e Barbara Nichols são três das quatro rainhas, não me lembro quem era a última. Sempre fui louco por Walsh. ‘O Intrépido General Custer’, ‘Fúria Sanguinária’, ‘Sua Única Saída’, ‘Golpe de Misericórdia’, ‘Barba Negra’ e ‘Um Clarim ao Longe’ estão entre os meus cults, os filmes que carrego comigo. Acredito profundamente no que diz Jean Tulard. A carreira de Walsh, sozinha, oferece uma espécie de súmula de Hollywood. Ele fez filmes de todos os gêneros, em todos os estúdios, dirigindo os maiores astros (alguns, pelo menos). Só que, ao contrário de John Ford, que recebeu quatro Oscars, e Howard Hawks, que recebeu pelo menos um, de carreira, especial, Walsh entrou na categoria dos grandes diretores esquecidos pela academia. Revendo, há pouco, o livro de Enéas de Souza ‘Trajetórias do Cinema Moderno’ – na reedição feita pela Prefeitura de Porto Alegre, na coleção ‘Escritos de Cinema’ -, reli o capítulo em que ele fala da estrutura do realismo de cena, e encontrei aquela referência ao travelling avante de ‘O Mundo em Seus Braços’, quando a câmera avança sobre Gregory Peck. É deslumbrante e, para mim, uma retomada do travelling avante sobre Errol Flynn, que se despede de Olivia De Havilland, na véspera de partir para Little Bigh Horn, onde ele sabe que será massacrado com seus homens pelos índios. É a própria negação da história, uma mistificação. Walsh embeleza o personagem e busca um significado nobre para sua ação. O intrépido general Custer de Flynn é o herói definitivo, que se deixa matar e morre com glória, em defesa dos peles-vermelhas. Essa versão ‘romântica’ foi desmentida depois e é muito mais provável que ele tenha sido o militarista sanguinário de ‘Pequeno Grande Homem’, que Arthur Penn realizou 30 anos mais tarde, em 1970, usando o massacre da Cavalaria para refletir sobre a guerra, então em curso, no Sudeste Asiático. Pode ser que o Custer garboso de Flynn e Walsh nunca tenha existido, mas como herói de cinema ele é um dos mais belos que existem e eu não consigo deixar de amar o filme, inclusive por aquela cena da despedida, quando Flynn, cerimoniosamente, diz a Olivia que foi um privilégio ter vivido ao lado dela. Ele a beija, vira-se e sai de quadro, a câmera, depois de avançar, agora recua e Olivia cai desmaiada. Que que é aquilo, meus Deus? ‘O Mundo em Seus Braços’ faz de Gregory Peck o marinheirto que se envolve e tenta conquistar a condessa russa Ann Blyth, em São Francisco, por volta de 1950. Quando a câmera avança sobre o ator, o sentido é diferente de ‘O Intrépido General Custer’, é para realçar a força de sua presença e a integridade que ele representa. Walsh criou os maiores heróis da minha infância e adolescência. O diálogo final de Troy Donahue, como o lieutenant Matt Hazzard, e o chefe índio, quando selam a paz em ‘A Distant Trump’, é uma coisa emocionante. Pela mesma época – o filme também é de 1964 -, John Ford, em ‘Crepúsculo de Uma Raça’, ao retratar o outono dos cheyennes, também se acertava com os índios, depois de havê-los matado, durante décadas, na tela. Ford, Hawks, Walsh eram grandes senhores do cinema. Tem um texto do Glauber, acho que em ‘Um Século de Cinema’, em que ele esculhamba com Ford, durante a Guerra do Vietnã, mas reconhece que o ‘velho’ representava a epopeia, o cinema clássico que era preciso destruir, criando mil Vietnãs no cinema, para sacralizar a revolução. Sonhos de visionários, que remetem aos míticos anos 1960. Hoje, são todos ‘clássicos’. E ‘sonhadores’.