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Cultura » O movimento em planos parados

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Luiz Carlos Merten

26 Julho 2010 | 16h09

Fui ver ontem ‘O Grão’, de Petrus Cariry, no Belas Artes. Gostei do filme, sobre o qual ainda não havia conseguido falar no ‘Caderno 2’. O texto sai na edição de amanhã. Durante toda a manhã, cacei o diretor, que está numa praia no Ceará, onde o celular não estava pegando. Consegui falar com Petrus já no limite do deadline. ‘O Grão’ é sobre essa família no sertão. Existem similaridades com ‘Vidas Secas’ – pai, mãe, casal de filhos, cachorrinho, a avó –, mas as diferenças são fortes. A avó é uma fabuladora, narra uma história para o neto que fala de nascimento, vida e morte, o ciclo da existência. Essa avó é uma personagem típica de Rosemberg Cariry, pai de Petrus e um cineasta que respeito, por sua cultura, sua erudição, sem admirar o barroquismo de seu cinema (que nunca me parece logrado). Gostei de conversar com Petrus. É raro podermos falar de mise-en-scène com um diretor brasileiro. ‘O Grão’ é muito bem dirigido, plástica e dramaticamente. Petrus usa planos parados – só em alguns momentos da narração da avó recorre ao campo/contracampo – e seus desafio é criar o movimento dentro deles. São vários planos dentro dos planos, personagens que entram, saem, que se movem, sem interagir, quase sempre imersos nas próprias solidões. A TV já chegou ao universo de ‘O Grão’. É uma personagem e, talvez, uma intrusa. Está ali ligada, mas as pessoas não se ligam nela, cada uma buscando a própria saída na secura daquelas vidas. O pai bebe, a irmã mais velha quer se casar e o menino viaja na história da avó. Petrus me disse que não teoriza sua mise-en-scène, mas que procura sempre a melhor maneira de servir à história. Ele se assume como cinéfilo – influência do pai – e se confessa marcado pelos enquadramentos de Pedro Costa, de Jia Zhang-ke. Há muito de ‘Ossos’, de ‘Juventude em Marcha’ em ‘O Grão’. O mais curioso é que entrei na internet em busca das premiações do filme – os curtas de Petrus receberam mais de 40 troféus em festivais no Brasil e no exterior, 40! – e descobri que ‘O Grão’ foi para a mostra oficial de Toulouse, na França, mas naquele ano, 2008, quem ganhou o prêmio de documentário foi Manfredo Caldas, pelo belíssimo ‘O Romance do Vaqueiro Voador’, que amo. Não vou dizer que sejam gêmeos, mas também não são totalmente estranhos. ‘O Grão’ se constrói nas margens da ficção e do documentário, ‘O Romance’ busca uma linguagem poética para o documentário. Havia um público reduzido para ‘O Grão’, no domingo à tarde. Calculo que uns 30 espectadores, talvez menos, na Sala Oscar Niemeyer do Belas Artes. Com um pouco de divulgação, espero que mais espectadores se sintam tentados a conferir o belo filme autoral de Petrus Cariry.