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Luiz Carlos Merten

22 Outubro 2009 | 13h15

Antes de encarar a Mostra, que começa hoje para convidados com ‘À Procura de Eric’, de Ken Loach, preciso zerar assuntos pendentes. Ninguém está me pedindo, mas quero falar sobre “Fados’. Assisti ao filme de Carlos Saura com meus amigos Dib Carneiro Neto, Gabriel Villela e Cláudio Fontana. Os três detestaram – e Gabriel, em fase de lua de mel com a ‘sétima arte’ (ele adorou os filmes de Lars Von Trier e Quentin Tarantino), me cobrou: cadê o cinema? –, mas eu confesso que estes filmes cantados e dançados do Saura mexem comigo. Não estou falando do seu Lorca (‘Bodas de Sangue’) nem da ‘Carmem’ nem do De Falla (‘El Amor Brujo’). Falo dos documentários – ‘Flamenco’, ‘Tangos’ etc –, que nem são documentários, pelo menos no sentido tradicional. São sempre outra coisa, as performances registradas e estetizadas por meio do jogo de telas, de luzes. Sinceramente, nunca sei como reduzir esses filmes a uma definição, um gênero, um conceito que seja. Já conversei com o próprio Saura sobre isso – no Festival do Rio – e me lembro que ele disse que não poderia me ajudar, porque ele faz, quem reflete sou eu, como jornalista e crítico de cinema. Gabriel me disse uma coisa que ficou comigo. O fado, ao contrário do tango, não é para ser dançado, qualquer fadista português, de raiz, vai confirmar isso. E o Saura insiste em coreografar seus fados, ou os fados que escolheu. Por que? Mais além da tristeza, esse traço indelével da alma portuguesa, que Manoel de Oliveira explora no talvez mais belo de seus filmes – ‘Non ou a Vã Glória de Mandar’ –, ele busca no fado a sua sensualidade, até porque informa, no texto de abertura, que ele nasceu no cais do porto, ligado ao meretrício. Acho lindo aquele bloco em que aparece Amália Rodrigues, a forma como ela vai criando. É um registro documental que me lembrou a ficção de ‘Piaf’, quando Marion Cotillard recebe a visita do garoto que diz que tem essa música para ela, ‘Je ne Regrette Rien’, e ele canta e Piaf imediatamente incorpora a canção, que vai ter um significado especial, como súmula de uma vida que não foi fácil, e teve perdas, mas ela não seria o que chega a ser sem seus erros (que assume). Outra coisa que gostei foi o bloco do fado político, que começa com ‘Grandola, Vila Morena’ e as imagens do 25 de abril, prosseguindo com o ‘Fado Tropical’, cantado por Chico Buarque. Gabriel Villela acha que Saura não entendeu nada da ironia de Chico, mas eu acho que ele entendeu, sim. Há beleza, e tristeza, naqueles versos, a despeito de sua ironia. Quando Chico, em plena ditadura, cantava que essa terra, o Brasil, ‘ainda vai seguir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal’ e estava subentendido que era a Revolução dos Cravos, aquilo me faz chorar porque nem lá nem cá a revolução triunfou e, apesar de todos os progressos adquiridos, e comprováveis – e os problemas também –, realmente o império colonial, que Chico também canta, está preso, subentendido, à herança sifilítica do canavial, sobre o qual Gilberto Freyre teorizou em ‘Casa Grande & Senzala’. Não sei se estou me fazendo entender, mas foi impressionante como um filme que, em princípio, as pessoas e eu próprio não definiria como ‘político’, me fez pensar ao longo de toda esta semana, muitos mais do que outros que vi (e reconheço como melhores e mais importantes).