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Luiz Carlos Merten

09 Dezembro 2008 | 08h35

Sam Peckinpah morreu em 28 de dezembro de 1984. Completam-se, neste mês, portanto, 24 anos, de seu desaparecimento (apenas dois meses depois de François Truffaut, mas esta seria outra história). Peckinpah tinha 58 anos e iniciara sua carreira no final dos anos 40. Orgulhoso de suas origens – era neto de um cacique -, escreveu episódios de séries de TV (‘Gunsmoke’, ‘The Rifleman’ e ‘The Westerner’) e colaborou com Don Siergel no cult ‘Vampiros de Almas’ (Invasion of the Body Snatchers), no qual teve, inclusive, um pequeno papel. Sua carreira como diretor não é extensa em quantidade. O primeiro longa, ‘O Homem Que Eu Devia Odiar’ (The Deadly Companions), é de 1961. O último, ‘O Casal Osterman’, de 84, no próprio ano de sua morte. Entre esses dois filmes, Peckinpah realizou outros 12 títulos – 14 filmes no total. Dois ou três, entre os últimos, são medíocres (e indignos do diretor). Três ou quatro foram remontados pelos produtores e eram renegados pelo autor. Mas os quatro ou cinco nos quais Peckinpah colocou seu sangue, suor e lágrimas – acaso, sua alma – são obras fundamentais e lhe garantem um lugar destacado na história do cinema. Cinema da crueldade, o de Peckinpah provocou polêmica nos anos 60 e 70 pelo que os críticos consideravam sua excessiva violência. Mas ele nunca foi um apologista da violência. Em seus filmes, ela é a reação que se pode esperar de personagens crepusculares, conscientes de que estão vivendo o fim de uma era – a deles. Peckinpah foi um estudioso do comportamento humano numa era de transformações radicais. O mundo estava mudando nos anos 60. Ele foi além da última fase de John Ford, que já apontava para a decadência e as mudanças comportamentais no western. É todo um mundo que desaparece em seu cinema. Seus persnagens egam em armas como um último alento – vivem, em, outro contexto, ‘à bout de souffle’, como o Michel Poiccard de ‘Acossado’, de Jean-Luc Godard. O tom é dado por ‘O Homem Que Eu Devia Odiar’, no qual a fordiana Maureen O’Hara contrata Brian Keith para ajudá-la a atravessar o Velho Oeste com o esquife do marido. Não se trata apenas da violência latente pelo caminho. Outros heróis peckinpahnianos também aceitam missões impossíveis – a dupla de velhos pistoleiros Joel McCrea/Randolph Scott escolta um carregamento de ouro em ‘Pistoleiros do Entardecer’, Warren Oates carrega a cabeça putrefata do homem que matou em Alfredo Garcia’, e assim por diante. ‘O Homem Que Eu Devia Odiar’, também conhecido como ‘Parceiros da Morte’, foi remontado pela empresa produtora e distribuidora (Warner) e nunca veio a público no formato que diretor queria. Outros de seus westerns tiveram a mesma sorte – ‘Juramento de Vingança’ (Major Dundee) e ‘Pat Garret e Billy the Kid’. Na verdade, poucos filmes de Peckinpah estrearam exatamente na versão que ele queria – ‘Pistoleiros do Entardecer’ mostra a decadência dos mocionhos ao mesmo tempo que a afirma; McCrea e Scott tentam ser bandidos, roubando o ouro que escoltam, mas estão condenados a morrer como heróis; o bando selvagem de ‘Meu Ódio Será Sua Herança’ (The Wild Bunch) morre num banho de sangue, não sem antes afirmar sua unidade como grupo. O que os distingue não é a individualidade, mas o sentimento de coletividade que os legitima, num mundo no qual se tornaram obsoletos e, portanto, descartáveis. O próprio Peckinpah tinha um carinho especial por ‘A Morte não Manda Recado’ (The Ballad of Cable Hogue), seu filme mais terno, ou o menos violento, no qual o herói morre atropelado acidentalmente por um carro. O estupro de ‘Sob o Dopmínio do Medo’ (The Straw Dogs) é filmado de um jeito que pode ser só um delírio de Dustin Hoffman, mas desencadeia a violência irracional do homem pacato, que pega em armas em defesa do ‘lar’. ‘Tragam-Me a Cabeça de Alfredo Garcia’ é melhor, um dos grandes filmes do diretor, mas é preciso estômago forte para acompanhar a trajetória do cada vez mais amarrotado Warren Oates, um dos atores-fetiche de Peckinpah, que precisa levar aquela cabeça como prova de que matou, como combinado, mas a missão se complica, o tempo passa e a cabeça, infestada de moscas, apodrece cada vez mais. No começo dos anos 70, insatisfeito com os rumos da própria carreira, Peckinpah teve um intervalo feliz por meio de seus dois filmes com Steve McQueen, ‘Dez Segundos de Perigo’ (Junior Bonner) e ‘Os Implacáveis’ (The Getaway). Foi quando deu sua célebre entrevista à ‘Playboy’ e, desgostoso, comparou-se a uma ‘whore’, dizendo que, como p…, colocava seu savoir-faire a serviço da satisfação dos clientes. Provocativamente, ele dizia que era a melhor p… de Hollywood. De certa maneira, por uma questão de temperamento ou o quê, pode-se dizer que Peckinpah não conseguiu concretizar seu potencial. A morte prematura é a prova de que não resistiu às pressões da indústria. Mas há, na sua obra irregular, um punhado de filmes que fez dele um dos grandes do cinema – um dos maiores e mais influentes. O western nunca mais foi o mesmo depois de Peckinpah. O cinema, como um todo, também. Confesso que tive um choque quando vi em Berlim, há três ou quatro anos, a versão restaurada de ‘Pat Garret’, que encerrou o festival. Fiquei siderado. Em 1973, como um visionário, Peckinpah antecipou tudo o que ia ocorrer no mundo. O xerife faz parte deste novo mundo das corporações e dos bancos. Ele elimina Billy the Kid porque o pistoleiro é um corpo estranho neste novo mundo que antecipa estranhamente a globalização e o neoliberalismo econômico. Mas, ao fazê-lo, Pat cava a própria sepultura. Missão cumprida, ele não serve para mais nada. Antes, ‘Pistoleiros do Entardecer’ e ‘Meu Ódio Será Sua Herança’ eram meus filmes favoritos de Peckinpah. Depois daquela Berlinale, ‘Pat Garret e Billy the Kid’ foi para o meu panteão. Bastam esses e o sublime ‘Os Implacáveis’, com a cena das bofetadas entre Steve McQueen e Ali MacGraw, para que eu carregue Peckinpah no meu coração. Nunca me senti muito à vontade na guerra de ‘A Cruz de Ferro’, em que os adultos agem como crianças e a selvageria da cena em que a p… arranca o pênis do soldado com uma dentada me parece um dos pesadelos mais terríveis que tive sonhando acordado no cinema.