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Cultura » O ‘meu’ Oscar

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Luiz Carlos Merten

23 Fevereiro 2009 | 11h14

Estou chocado, não sei se comigo ou se com a academia. Nunca acertei tantas previsões para o Oscar, sinal de que a premiação deste ano foi mesmo sem surpresas. Na verdade, acho que aprendi – em geral, costumo superpor meu desejo ao que acho que vai ocorrer. Este ano, ficou mais fácil porque, mesmo preferindo ‘O Curioso Caso de Benjamin Button’, gosto de ‘Quem Quer Ser Um Milionário?’ e, assim, ficou mais fácil aceitar que o filme de Danny Boyle fosse ganhar. Achei curioso, mais que o caso de Benjamin Button, um detalhe fugaz, o flash de David Fincher, na hora do anúncio do prêmio de direção. O único, além do próprio Boyle, que podia ter alguma expectativa de premiação era Fincher. Foi impressão minha ou passou uma sombra de enfado pela cara dele, obrigado de estar ali, cumprindo aquele rito e sabendo, de antemão, que iria sobrar? Agora parece fácil, mas nunca tive dúvida de que Sean Penn fosse levar o prêmio de ator, deixando Rourke a ver navios. Só fui atropelado, mesmo, no Oscar de melhor filme em língua estrangeira, porque achava, como o mundo, que o israelense ‘Valsa com Bashir’ já havia recebido sua estatueta por Sedex, de tanto que era favorito. A vitória do filme japonês ‘Departures’ foi a exceção que confirmou a regra das vitórias anunciadas. No geral, foi uma boa festa. Mais compacta, com um apresentador – Hugh Jackman – que procurou fazer menos humor a qualquer preço e desempenhou, cantando e dançando, nas horas certas. O novo formato, com um roteiro mais sólido no encadeamento das categorias – simulando o processo de realização de um filme – , foi legal, mas eu confesso que curti mesmo foi a inovação na apresentação dos prêmios de elenco. Em geral, era sempre o vencedor, ou vencedora, do ano anterior quem entregava o prêmio ao vitorioso do sexo oposto. Cheguei a escrever aqui que esperava ver Javier Bardem entregar o prêmio a Penelope Cruz, no que imaginava que seria uma festa espanhola. Achei muito legal aquele colegiado de vencedores, e mais ainda o das vencedoras. Foi emocionante, pelo menos para mim, rever Eva Marie Saint, atriz que faz parte do meu imaginário, por seus papéis em filmes de Alfred Hitchcock (‘Intriga Internacional’), Otto Preminger (‘Exodus’) e John Frankenheimer (‘O Anjo Violento’), embora ela tenha recebido o Oscar de coadjuvante por ‘Sindicato de Ladrões’ , de Elia Kazan, em que suas cenas com Marlon Brando, no viveiro das pombas, possuem um lirismo raro, e não apenas na obra do grande diretor. Achei emocionante o caloroso cumprimento de Anthony Hopkins, falando para Brad Pitt e concluindo – “É um belo trabalho, meu amigo.” A fala de Marion Cotillard para Kate Winslett também foi 10 e o que foi aquilo – Sophia Loren dirigindo-se a Meryl Streep? Uma instituição, um ícone, para outro. Que coisa! Digo sempre que a gente precisa relativizar o Oscar, que o prêmio não é isso tudo, não, mas certos momentos do Oscar passam para a história, e para a nossa história pessoal. O Oscar da recessão foi o melhor dos últimos tempos. Salvou a academia, no momento em que Bollywood chega para arrombar a festa, com direito a Steven Spielberg como abre-alas na consagração final de ‘Slumdog Millionaire’.

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