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Cultura » O ‘meu’ Lumet (2)

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Luiz Carlos Merten

15 Abril 2011 | 10h31

Trabalhava com José Onofre no departamento de audiovisual do Colégio Israelita Brasileiro, no fim dos anos 1960, em Porto, quando vi meu primeiro ‘Cahiers’. Também não sei em que circunstâncias me apropriei de um livro que o Zé adorava – ‘Kiss Kiss Bang Bang’, de Pauline Kael. Entre os ensaios contidos no volume havia o making of de ‘O Grupo’, que Sidney Lumet adaptou do romance de Mary McCarthy, acho que em 1966, e com aquele elenco feminino! A maior coleção de atrizes jovens de Hollywood na época – Candice Bergen, Joan Hackett, Elizabeth Hartman, Shirley Knight, Joanna Pettet. Pauline fala do seu constrangimento quando foi assistir ao filme pronto com o diretor. Ela diz que nunca viu nada parecido. Lumet tinha as reações mais impróprias possíveis. Ria nas horas mais inadequadas, fazia observações inconvenientes e ela deixa subentendido, ou chega a afirmar, nem lembro mais, que tudo aquilo era coisa de quem não havia entendido o próprio trabalho. Anos mais tarde, saiu um livro no Brasil do próprio Lumet, com suas reflexões cinematográficas. Era o livro de um prático, não de um teórico. Após o início retumbante com ‘Doze Homens e Uma Sentença’, Lumet seguiu uma carreira ziguezagueante. Foi uma coisa meio geracional. Daqueles jovens que a TV cedeu a Hollywood na segunda metade dos anos 1950, a maioria foi ficando no meio do caminho. Arthur Penn e John Frankenheimer foram as exceções – as dificuldades de ambos foram sentidas/vividas numa etapa posterior. Os filmes seguintes de Lumet foram, todos, ou quase todos, decepcionantes, mas ele tinha uma atração muito forte pelo teatro. ‘Quando o Espetáculo Termina’, ‘Vidas em Fuga’, ‘Panorama Visto da Ponte’. Seu tributo a Sophia Loren (‘Mulher Daquela Espécie’) foi bizarro, no mínimo, e onze entre dez espectadores vão guardar do filme apenas os chapelões que ela usava. Mas aí o Lumet fazia umas coisas ousadas – sua adaptação de Eugene O’Neill (‘Um Longo Dia de Viagem Dentro da Noite’) fez a passagem de Katharine Hepburn de comediante para trágica. ‘Limite de Segurança’ foi a versão standard, mas boa, do genial ‘Doutor Fantástico’ – Lumet não era Kubrick, nisso estamos todos de acordo – e ‘O Homem do Prego’ incorporou inovações estilísticas do cinema europeu (Resnais), sendo muito forte como relato intimista e reflexão sobre o Holocausto. Lumet fez quase que em seguida os piores dois filmes de sua carreiora, o abominável ‘O Encontro’ e ‘Brutalidade Desenfreada’, pelo qual devia ser preso (é brincadeirinha!), porque aquilo era o caos. E aí começou uma fase boa – ‘Serpico’, ‘Um Dia de Cão’, ‘Rede de Intrigas’. O caso de ‘Assassinato no Orient Express’ é especial. Adoro Agatha Christie e o formato da narração, toda em planos-sequências (num trem!), me fascina, mas nunca me convenci plenamente com o aspecto ético daquele grupo que se assume como corpo de jurados e executa uma sentença –é o anti-‘Doze Homens’. Interessante é que Lumet nunca deixou de entremear filmes bons com ruins – ‘Até os Deuses Erram’, ‘O Mágico Inesquecível’ (seu sinistro e totalmente ‘esquecível’ remake de ‘O Mágico de Oz’), ‘A Manhã Seguinte’, ‘Negócios de Família’. Não tenho o mesmo apreço do Sidney pelo testamento de Lumet, ‘Antes Que Saibam Que Você Está Morto’, mas confesso, agora vou fundo, que é puro preconceito meu. Gosto muito da situação familiar geral, do Albert Finney, mas a cena de sexo do Philip Seymour Hoffman com Marisa Tomei me derruba. É preconceito, sei, mas aquele cara fazer aquela mulher gozar daquele jeito nem nos meus voos ficcionais mais delirantes eu consigo acreditar (como também não acredito no James Spader traçando o Elias Koteas em ‘Crash’, de David Cronenberg). Teria de fazer análise, mas não é o caso. Empaco nessas cenas e os filmes inteiros começam a se desmontar na minha cabeça. Isso posto, é claro que Lumet foi um cara importante, que fez grandes filmes, mas ele sempre me passou – e a Pauline Kael reforçou isso com sua observação – a sensação de não ter sido suficientemente exigente consigo mesmo. Lumet me passa a sensação de que poderia ter sido maior. Talvez se tivesse filmado menos, se tivesse evitado certas facilidades… Talvez. Filmes como ‘Doze Homens’, ‘O Homem do Prego’, ‘Serpico’, ‘Um Dia de Cão’ e ‘Rede de Intrigas’ – cinco títulos, cerca de 10% dos 50 que ele assinou –, de qualquer maneira, me encantam. Os dois últimos são clássicos marcados pela formação do diretor na TV. Um, a visão externa, o outro, a interna, completam-se. Não é possível refletir sobre a TV, como meio massivo de comunicação, sem fazer referência a Sidney Lumet.

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