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Cultura » O ‘meu’ Lumet (1)

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Luiz Carlos Merten

15 Abril 2011 | 09h33

Atendendo a pedidos, lá vou eu encarar o tema ‘Sidney Lumet’. Mas antes de falar sobre o diretor gostaria de deixar registrada uma coisa. Foi bacana, anteontem, na junket de ‘Velozes e Furiosos 5’, ver o Vin Diesel falar sobre ele. O assunto surgiu na sequência de um papo sobre o pai dele e a filha (Vin é pai solteiro). Só faltou uma musiquinha de fundo. Ele mudou o tom e falou como se as palavras viessem lá do fundo. Lumet deve ter sido uma figura paternal para ele, num momento da carreira em que precisava disso. Sidney Lumet! Cheguei ontem no fim da tarde do Rio, tinha matérias para a edição de domingo do Telejornal. Fui jantar com Dib Carneiro e Regina Cavalcanti. O que isso tem a ver com Lumet? Na saída do restaurante, fomos levar a comida que havíamos encomendado para João Luís Sampaio que, com a gripe, estava acabadaço em casa. Estava começando na TV o ‘Doze Homens e Uma Sentença’, a versão de 1957, do jovem Lumet. Não conseguia desgrudar o olho da tela. João e Dib falavam e eu pedia silêncio. Teria de pesquisar para ver quantos filmes Henry Fonda fez em 1957, mas foi o ano, também, de ‘The Tin Star’, de Anthony Mann, que no Brasil se chamou ‘O Homem dos Olhos Frios’. O pai de Jane faz um caçador de recompensar. O olhar gélido – Sergio Leone viu o western de Mann e foi de lá que tirou o Henry Fonda assassino frio de ‘Era Uma Vez no Oeste’. E justo em 1957, tã-tã-tã, Lumet vai apresentando seus jurados e Martin Balsam chama, ‘Hei, Mister’, para o último que ainda está de pé. Henry Fonda olha pela janela, volta-se e o olhar é puro calor humano. Esse homem vai balançar uma decisão que já está tomada, vai subverter o júri. É bom demais da conta esse trem, como dizem os mineiros. Lumet foi um diretor cuja carreira se estendeu por mais de 50 anos e que fez mais de 50 filmes. É difícil, senão impossível, manter a regularidade, principalmente porque Lumet pegou as transformações, não apenas estéticas, mas econômicas, que mudaram a face de Hollywood. Foi um diretor irregular? Sem dúvida. Um autor? Pessoalmente, dada a diversidade de filmes que Lumet fez, tenho a maior dificuldade em identificar um tema, um estilo. Uma preferência? Por outsiders, personagens marcados pelo passado ou por suas escolhas, claro. O estilo? Influenciado pelos cortes e angulações da TV, de onde ele veio, mas não há nada menos TV do que o seu John Le Carré (’Chamada para Um Morto’), que não chega a ser denso como o de Martin Ritt (‘O Espião Que Saiu do Frio’), ou o seu Chekhov (‘A Gaivota’), que também não vale o de Andrei Konchalovski, o sublime ‘Tio Vânia’, com o genial Innokenti Smoktunovski. Tenho de confessar que sempre ‘desconfiei’ de Lumet. Não sei por que, mas fui, talvez, influenciado por uma observação que a crítica Pauline Kael fez sobre ele. Aguardem o próximo post.