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Luiz Carlos Merten

22 Novembro 2011 | 14h24

Minha manhã foi punk, até para os meus padrões. Fiz os filmes na TV de amanhã na redação do ‘Estado’, acrescentei o novo post sobre ‘Mandingo’ e corri para o Shopping Eldorado, para tentar ver ‘Happy Feet 2’. Peguei a cidade travada e, é claro, não consegui chegar. No sábado, já havia ido ao Eldorado – estava mais perto, em casa, em Pinheiros -, mas fui barrado na porta porque não encontrei ninguém da Warner e, sem convite, a simpática mocinha que recepcionava os convidados da sessão de ‘Happy Feet 2’ não me deixou entrar. Não cheguei a tentar a cartada do ‘Sabe com quem está falando?’, mas tenho certeza de que ela teria retrucado – ninguém! Não sei se estaria errada. Mas, enfim, meu plano inicial ainda era sair do Elorado e correr ao hotel, na Rua Augusta, para entrevistar Rugero Deodato. Não teria conseguido.Passei o maior sufoco para entrevistar Deodato, passado do meio-dia, e correr para o Shopping Frei Caneca. Como me dei conta de que não conseguiria voltar à redação para o fechamento, preferi correr para o Frei Caneca, onde redigi meu texto na lan house do subsolo, enviando-o por e-mail para o jornal. Agora redijo este post. Ruggero Deodato! Depois da homenagem do Festival do Rio a Dario Argento, o Cine Fantasy, que começa hoje, me permite conhecer o mestre italiano de canibais. À noite, haverá uma sessão de ‘Cannibal Holocaust’ na Sala Cinemateca, seguida de debate (que vou mediar). Adorei conversar com Ruggero e lamento que tenha tido de cortar a matéria que havia redigido pela metade. Mesmo assim, ele diz coisas importantes. ‘Cannibal Holocaust’ é de 1980 e, nas décadas anteriores, nos anos 1960 e 70, houve um surto de antropofagia nas telas, com obras de Jean-Luc Godard, Pier-Paolo Pasolini e Nelson Pereira dos Santos. Todos metaforizaram o canibalismo, deram-lhe uma dimensão política. Deodato, não. O que ele quis, com seus canibais, foi testar os limites do realismo no cinema. E Deodato me contou que foi assistente de Roberto Rossellini, nome emblemático do (neo-)realismo, inclusive em ‘De Crápula a Herói’, Il Generale della Rovere, que integra a programação de clássicos italianos da Semana Pirelli, no MIS. Deodato me contou coisas lindas sobre o De Sica ator, que tem seu melhor papel como o falso general e o próprio filme é o meu favorito de Rossellini, certamente bem mais do que ‘Roma, Cidade Aberta’ ou ‘Paisà’, Convido quem quiser, ou puder, para o debate desta noite. Deodato credita sua redescoberta a ‘A Bruxa de Blair’, que ‘Cannibal Holocaust’ antecipou de 20 anos, convertendo-o num ‘autor’ cultuado por Quentin Tarantino e Carlos Reichenbach. Adorei o que o ‘velho’ me disse – é carinhoso. Ele não pode nem ouvir falar de Umberto Lenzi, que levou adiante a tradição de canibais do cinema italiano. Lenzi usou material de filmes de Ruggero Deodato, e isso ele considera eticamente inadmissível. E aí, a gente se vê na Cinemateca?

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