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Luiz Carlos Merten

24 Outubro 2006 | 08h49

Conversei ontem com Alberto Serra, o diretor (catalão) de Honor de Cavalleria, que já é, desde logo, um dos meus candidatos ao prêmio da crítica na Mostra. Adorei o filme do Serra quando o vi em Cannes, como integrante do júri da Caméra d’Or, mas não devo ter sido muito convincente, porque não consegui emplacar nem o Honor de Cavalleria nem Hamaca Paraguaya, da Paz Encina (maravilhoso, também na Mostra) e muito menos El Violín, do mexicano Francisco Vargas Quevedo (mais um na Mostra). Era o único latino naquele júri francófono e predominantemente europeu. Não estava lá como representante do cinema da América Latina ou Íbero-Americano, mas foram minhas preferências. Gosto muito do Violino, mas confesso que o filme me decepcionou um pouquinho em Gramado. É forte, é poderoso, a segunda parte me toca e o ator Don Angel Tavira já faz parte das minhas emoções inesquecíveis no cinema, mas há algo de formalista e acadêmico no começo, à Figueroa, que agora me incomodou (e que era o que reprovavam os irmãos Dardenne, que presidiam o júri da Caméra d’Or). Cavalleria e Hamaca, de qualquer maneira, são irretocáveis e qualquer um poderia levar o prêmio da crítica. Alberto Serra, aliás, me disse que chegou a São Paulo vindo da Viennale, o Festival de Viena, onde há chance de que seu filme, hoje ou amanhã, receba o prêmio da crítica, porque o pessoal de lá gostou muito. Daqui, segue para Londres, onde Honor de Cavalleria integra a programação do London Film Festival, devendo passar no fim de semana. O filme baseia-se no Don Quixote, de Cervantes. A propósito, Serra é graduado em teoria da literatura. Admira Kiarostami e Sokúrov, mas Orson Welles e Robert Bresson foram as referências mais explícitas. O primeiro fez um Quixote que Serra abomina (e é mesmo muito ruim), mas tem dez minutos fantásticos, quando os atores recitam o texto de Cervantes e há um vento que invade a trilha sonora. O vento de Welles e o barulho das armaduras de Bresson em Lancelot du Lac. As duas influências foram (ou são) muito conscientes em Honor de Cavalleria. Vou voltar a falar do filme, que passa amanhã na Mostra, mas agora só quero dizer que comentei com o Serra ter visto em Londres a exposição do Velásquez na National Gallery, que foi uma revelação para mim. Falei nos olhares agônicos dos personagens do Velásquez e o Serra me disse que, na Espanha, os críticos mais eruditos, se é que se pode dizer assim, reconheceram no filme dele sinais da grande mística espanhola do século 16. Até nisso, Honor de Cavalleria é complexo e fascinante. Não é experimental (Serra não gosta da palavra), mas foi um filme feito fora do sistema tradicional e, mesmo com uma narrativa que não tem começo nem fim, segue alguns mandamentos do cinema popular (tem aventura, personagens). A ousadia do Serra foi ter filmado um fragmento do monumento de Cervantes. Só um fragmento do Quixote basta para criar outra coisa. Afinal, mesmo com formação em literatura comparada, Serra é cineasta. Aos 31 anos, sem nenhuma experiência prévia (exceto pequenos filmes domésticos), ele fez este filme que a mim, pelo menos, representa, com Hamaca Paraguaya, o que deva ser um cinema que pensa – e arrisca. Arrisca tanto que, na Espanha, lançado com seis cópias, Honor fez 7 mil espectadores. Ou seja, o problema do mercado, para o cinema que ousa, é o mesmo em todo mundo.

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