As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O maravilhoso presente de De Sica

Luiz Carlos Merten

26 Maio 2015 | 20h06

PARIS – Fui hoje a Notre Dame, como sempre vou. E ao cinema. Estava em dúvida quanto a rever Umberto D, mas fui. Foi a melhor coisa que poderia ter-me acontecido. Martin Scorsese disse que é um grande filme sobre um herói cotidiano. Vittorio De Sica dedicou-o a seu pai. Scorsese acrescentou que se trata de um presente precioso de De Sica para seu pai. E para nós, cinéfilos. Fechando o ciclo, a restauração foi supervisionada por Manuel De Sica, filho de Vittorio, como um ato (presumo) de amor a seu pai. Mais do que Ladrões de Bicicletas, é o experimento neo-realista total e radical de De Sica e seu roteirista, Cesare Zavattini. A vida sem artifícios e em tempo real. O despertar da empregada – tema e estrutura narrativa viram a mesma coisa. Engraçado como, no meu imaginário, o filme terminava na barreira do trem. E em suspense – onde está Flike? Vi a sequência toda, como continua depois, como se fosse uma descoberta. O rosto de Carlo Battisti. E o cão. Muitas vezes hesito diante de De Sica a tendo a achá-lo demagógico na sua manipulação dos sentimentos do público. Mas ao homem que fez Umberto D tudo será perdoado, até aquele horroroso O Condenado de Altona, adaptado de Jean-Paul Sartre. Revi também (ontem) A Tomada do Poder por Luís 14, quando Roberto Rossellini descobriu a TV como linguagem e ferramenta. Não tinha uma lembrança muito boa do filme, mas quando vi o rei se despir, e ser reduzido à sua dimensão humana – nada de pompa e circunstância -, pensei comigo que é preciso ser gênio para criar uma cena daquelas. Usando o mesmo raciocínio vou chegar à conclusão de que Leo McCarey também era gênio. Amo Tarde Demais para Esquecer, com Cary Grant e Deborah Kerr, que, independente de ser um melodrama de tirar lágrimas de pedra, é um dos filmes mais belos e refinados já feitos. Na sequência de Umberto D, vi também l’Extravagant Mr. Ruggles, Ruggles of Red Gap, com Charles Laughton, Zasu Pitts e Charlie Ruggles. A genialidade de McCarey.  Laughton faz mordomo de um gentleman inglês que o perde no jogo. Ele passa a servir a um rico norte-americano, que o leva para Washington. Há uma cena de jantar, reunindo toda a elite política da nação. Todo o mundo fala do célebre discurso de Lincoln em Gettysburg, mas ninguém consegue reproduzir as palavras. O pilar da democracia – a igualdade como fundamento da democracia. Laughton/Ruggles sabe todas as palavras, que recita. Que ator maravilhoso era Charles Laughton – e que diretor genial ele foi ao fazer O Mensageiro do Diabo. Maravilhoso também era McCarey. Ele tinha uma tendência ao sentimentalismo. Em Tarde Demais para Esquecer, a elegância da mise-en-scène equilibra as coisas. Aqui, é o humor. Nada como estar em Paris, esse paraíso dos cinéfilos.