Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » O manifesto ‘anarquista’ de Renoir

Cultura

Luiz Carlos Merten

06 Dezembro 2008 | 21h20

James Agee, o lendário crítico norte-americano, depois roteirista – a quem a própria Pauline Kael reverenciava como ‘mestre’ -, definiu certa vez Michel Simon como o Caliban do século 20. Michel quem? Vou ter de voltar ao Canal 5 Monde, que, para ser sincero, eu nem se onde é, mas porque me fornece a possibilidade – o álibi? – de falar sobre este ator que fez história no cinema. Michel Simon era feio, muito feio. Num certo sentido, acho que ele já nasceu velho, pois seus primeiros filmes com Jean Renoir e Jean Vigo, ‘La Chienne’ e ‘L’Atalante’, no começo dos anos 30, não o mostram fisicamente muito diferente de ‘Le Vieil Homme et l’Enfant’, que Claude Berri dirigiu nos 60 (e François Truffaut adorava). ‘L’Atalante’ integra a caixa da Versátil que resgata a totalidade da obra de Vigo. ‘Boudu Salvo das Águas’, que Renoir dirigiu em 1932, passa hoje às 2h30 no TV 5 Monde. Michel Simon é o próprio Boudu, o ‘vagabundo’ mais original da tela. Ele não tem nada a ver com o desejo de integração de Carlitos nem com a inocência dos personagens de outro cômico genial do silencioso, Harry Langdon. Boudu só quer ficar no seu canto, solitário. No clássico de Renoir, ele leva ao limite seu desgosto pela vida social e tenta se matar, jogando-se no Sena em frente à loja de um ricaço. Salvo das águas, Boudu, longe de se mostrar grato ao seu ‘salvador’, dedica-se com furiosa obstinação a subverter (e destruir) a ordem burguesa em que vive o personagem de Charles Granval. Em 1932, quando Renoir fez ‘Boudu, a França vivia um momento político particular. O socialismo chegara ao poder, mas na sua forma mais conservadora. Até como reação, o grande diretor concebeu este filme como o seu manifesto anarquista. Já escrevi aqui que tenho um sentimento ambivalente em relação a Renoir, que a nouvelle vague (e ‘Cahiers’) chamavam de ‘patron’ do cinema francês. Vários de seus filmes me parecem insatisfatórios, mas não sou louco de negar a importância de meia-dúzia deles. ‘Boudu’ é um dos melhores, com ‘A Grande Ilusão’, ‘A Regra do Jogo’ e ‘La Carrosse d’Or’. ‘Boudu’, quase 80 anos depois, ainda pode ser visto como um filme libertário, e hoje, mais do que nunca, o desprezo de Michel Simon pelas convenções assume a dimensão de uma alegria selvagem contra o humanismo responsável, mas banal, de M. (como é mesmo que ele se chama?) Lestingois? Michel Simon sugere, do ponto de vista físico, uma mistura de Charles Laughton com Margaret Rutherford, aquela ‘excêntrica’ atriz inglesa que interpretou Miss Marple nos anos 60. Era medonho, portanto, mas vê-lo em ação é um prazer e eu confesso que, diante de Michel Simon e sua grande arte, me lembro sempre de Anna Magnani na cena do espelho de ‘Belíssima’, de Visconti, em que a persongem que quer transformar a filha numa estrela mirim se pergunta o que é representar e diz que não conseguiria – Anna Magnani, suprema ironia viscontiana -, porque não saberia como dar vida a outra. Michel Simon relizava sempre este milagre de ‘representar’. Anos mais tarde, já no fim da vida, ele foi genial como o anti-semita rabugento que se liga ao menino judeu no filme de Berri. Não saberia dizer quando Michel Simon morreu, mas deve ter sido nos anos 70, após uma longa carreira na qual seu mito resistiu ao fato de que trabalhou principalmente com aqueles diretores (Marc Allégret, Julien Duvivier, René Clair, Christian-Jacque etc) que representavam o cinema de qualidade detestado por Truffaut. Vejam ‘Boudu’, revejam ‘L’Atalante’ e me digam se exagero. Como curiosidade, vale lembrar que ‘Boudu’ teve uma versão hollywoodiana nos anos 80, assinada por Paul Mazursky. Nick Nolte era quem fazia o papel de Michel Simon em ‘Um Vagabundo na Alta-Roda’ e sua cena de sexo com Bette Midler, vista pelos olhos do cachorrinho de madame, era aquilo que se chama de ‘ultrajante’ (e divertida). Um dia terei de falar sobre Mazursky, ex-ator – de ‘Sementes da Violência’, de Richard Brooks -, que virou uma espécie de cronista da vida americana, retratando personagens da pequena e média burguesia face às transformações (sociais, sexuais e morais) ocorridas a partir dos anos 60. Mazursky não dispõe de uma excelente reputação, mas eu confesso que tenho uma lembrança carinhosa de ‘Um Vagabundo’ e, mais ainda, de ‘Próxima Parada: Bairro Boêmio’, que vi no antigo cinema Vogue, na Av. Independência, em Porto Alegre. Não sendo um transgressor radical, ele deixou sua marca (embora talvez seja bom esquecer ‘Luar sobre Parador’, que fez com Sônia Braga, em Ouro Preto).