Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » O Leitor

Cultura

Luiz Carlos Merten

07 Fevereiro 2009 | 13h18

BERLIM – Ia deletar o post que acrescentei ontem, na corrida, mas resolvi conserva-lo, para os arquivos, como se diz. Prefiro comecar de novo, mesmo num teclado estrangeiro, sem acentos, o que eh sempre um problema para todos, para voces e para mim. Para inicio de conversa, cada vez que lerem eh trata-se da terceira pessoa do singular do presente do verbo ser. Eu sou, tu es, ele eh. Quem leu meu comentario do primeiro dia no Caderno 2, sabe quanto foi decepcionante o thriller de Tom Tykwer que inaugurou a Berlinale de 2009. Para dizer a verdade, o filme – The International, que no Brasil vai se chamar Trama Internacional – nem eh tao ruim, eh apenas o caso do programa errado. Por mais que o diretor art+istico Dieter Kosslick tenha procurado justificar a inclusao do filme fora de concurso, a verdade eh que o ataque de Tykwer ao sistema financeiro – e ao poder dos bancos – nao confere grande atualidade ao que eh um filme de acao um tanto banal, apesar das filmagens ao redor do mundo e de uma cena espetacular no Guggenheim Museum, de Nova York, destruido num tiroteio que nao deixa pedrta sobre pedra. Passado esse primeiro dia, as coisas começaram a encaminhar-se ja no segundo. Gostei de O Leitor, mas o filme de Stephen Daldry passa fora de concurso. Como ja estreou no Brasil, eh possivel que muitos de voces ate ja o tenham visto. Achei muito interessante a historia e suas implicacoes eticas. Daldry e seu roteirista, o dramaturgo David Hare, discutem questoes como a responsabilidade e o afeto. Rakph Fiennes debruça-se sobre o proprio passado e lembra o garoto que foi, tendo um affair com uma mulher mais velkha, quando tinha apenas 15 anos. Estudante de direito, ele vai acompanhar o julgamento dessa mulher, quando ela eh julgada por crimes de guerra, contra os judeus. Cria-se a seguinte situaçao – a personagem eh responsabilizada por uma açao que nao cometeu,m ou que nao poderias ter cometido sozinha, mas que ela assume com vergonha de revelar o seu segredo (que eu nao vou dizer qual eh). O garoto, podendo desfazer o equivoco, nao o faz e essa eh uma sutil maneira de discutir responsabilidades morais. Quando Kate Winslet devolve a pergunta do juiz – o que ele faria, se estivesse no lugar dela, sob o nazismo? -, a interrogaçao fica sem resposta. Nao se trata de buscar uma absolviçao para os crimes do nazismo nem para a conivencia do povo alemao, mas de uma discussao seria, e honesta, sobre responsabilidades individuais e coletivas. Isso fica claro na bela cena em que Ralph Fiennes vai a casa da judia rica, vitima de Kate e para quem ela deixou o dinheiro que ganhou na prisao. A cena eh magnifica, um pouco pela atriz, Lena Olin, mas tambem porque eh muito bem escrito e filmada, mostrando como um simples objeto pode adquirir um valor emocional que dinheiro nenhum vai comprar. Kate Winslet corre ao Oscar de melhor atriz, ela que ganhou, pelo papel, o Globo de Ouro de coadjuvante. Kate eh fantastica, mas usa uma maquiagem para envelhecer que nao convence. Acho que eh, no limite, a unica coisa de nao gosto nesse filme tao bonito. Vejam ai em Sao Paulo e a gente conversa.