Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » ‘O Leitor’

Cultura

Luiz Carlos Merten

22 Fevereiro 2009 | 11h38

Quando não dou sorte, não adianta. Tinha redigido um post enorme, que vi desaparecer na hora de salvar. M…! Vamos de novo. Queria rever ‘Foi Apenas Um Sonho’ ontem à tarde, mas o filme de Sam Mendes está em horários muito alternativos, em poucas salas. Vou ter dar um jeito de revê-lo nesta semana porque acho que, naqueles horários, não resiste mais muito tempo em cartaz. Posso ser o único – já estou acostumado… -, mas acho que o marido de Kate Winslett merecia por este novo filme toda a consagração que recebeu, inclusive no Oscar, por ‘Beleza Americana’. E o DiCaprio? Está excepcional. Tudo bem que todos os indicados para o prêmio da academia neste ano sejam muito bons, mas, como eu já tenho essa fama de ‘do contra’ para muitos de vocês, nem vou dizer quem eu retirava da lista de cinco para acomodar o ‘Leo’. Ocorreu que eu terminei indo rever ‘O Leitor’. Gosto bastante do filme de Stephen Daldy, e gostei ainda mais, se isso é possível. Em Berlim, havia sido suscetível a um tema de ‘O Leitr’, recorrente na edição deste ano do festival – a impossibilidade de se fazer/obter Justiça. Ontem, fiquei particularmente tocado pelo processo de educação de Hanna, a personagem de Kate Winslett, na cadeia. Me lembrou alguma coisa de um de meus cults – ‘O Chacal de Naueltoro’, de Miguel Littin. Não é uma banalização do direito à segunda chance, tão tradicional em Hollywood. É algo mais complexo, como deixa claro uma frase que o roteirista e dramaturgo David Hare colocou na boca de Hanna, quando Ralph Fiennes vai visitá-la na cadeia e pergunta o que ela aprendeu de toda a sua experiência pós-julgamento. Ele esperava, quem sabe, uma confissão de culpa, um discurso moral, e Ralph Fiennes, sempre um ator de grande sutileza, morde o lábio e traduz certa insatisfação (exasperação?) quando ela responde que aprendeu a ler. É como se dissesse – só isso? Só que ‘isso’, na verdade, é tudo e faz uma diferença, como revela o pedido final que Hanna faz a Fiennes. Recebi na quinta ou sexta-feira, nem lembro mais, o exemplar do livro ‘O Leitor’, em que David Hare e o diretor Daldry se basearam, refazendo a parceria de ‘As Horas’. No automático, fui à última página para ler o fim. O parágrafo de 15/20 linhas ocupa uma página. Está o texto lá em cima e depois todo aquele branco em baixo. A própria disposição gráfica foui legal para mim. Abriu todo um espaço para que eui pensasse, o que não prei de fazer até agora. As duas cenas talvez mais belas de ‘O Leitor’ saem daquele parágrafo. São invenções do diretor e do roteirista. Todo o encontro de Fiennes com a judia rica (Lena Olin), única sobrevivente dos crimes de guerra focalizados no filme, com a ideia genial da latinha em que Hanna guardava suas economias, e o passeio misterioso que Fiennes propõe à filha saem dali, embora não sejam nem sugeridos. Puta filme triste! Nem me passa pela cabeça dizer que ‘O Leitor’ é um flme perfeito. É até fácil enumerar seus defeitos, mas eu não vejo o menor motivo de me prender a eles. O que ganho com ‘O Leitor me deixa em débito, mais uma vez – após ‘Billy Elliott’, de que gosto mais de que ‘As Horas’, mas me deu vontade de rever o filme com/sobre Virginia Woolf -, com Stephen Daldry.