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Luiz Carlos Merten

22 Agosto 2010 | 13h53

Fui ontem a dois ou três lugares em busca do DVD de ‘O Barão Aventureiro’ e não consegui encontrar para venda, o que me deixa em débito com o Mauro Brider. Estou tentando, Mauro, tentando. Aproveito para acrescentar um post sobre ‘O Leão no Inverno’. Assisti ao filme de Anthony Harvey no lançamento, há mais de 40 anos. ‘O Leão’ estreou em Porto Alegre no Astor, quando a sala da Av. Benjamin Constant sediava a produção da Metro. O cinema desapareceu e eu, no meu imaginário, achava que ‘O Leão no Inverno’ tinha-se ido também. Não é um filme que disponha de muito boa reputação. Ganhou três Oscars – melhor atriz, Katharine Hepburn, melhor roteiro adaptado, para James Goldman, que adaptou a própria peça, e melhor trilha, para John Barry -, mas me lembro que, na época, os ‘críticos’ (ainda era jovem e os lia) descartaram o filme como a versão de ‘alcova’ da grande história (com H). ‘O Leão no Inverno’ seria o ‘Caldeira do Diabo’ da Inglaterra medieval, com sua visão das baixarias de bastidores da realeza. Confesso que, ontem, peguei o filme andando, a cena, logo no começo, em que Katharine, aliás, Eleanor da Aquitânia, chega de barco ao castelo do marido, Henry, que a mantém prisioneira. A trilha é deslumbrante e eu, que estava de saída, sentei-me para ver ‘um pouquinho’. Não consegui desgrudar o olho. O diálogo é brilhante, esgrimido como se fosse arma pelos atores que representam sobre a partilha do poder, neste momento em que o rei Henrique II reúne a família – e a mulher, de quem está separado – para anunciar quem o sucederá no trono. Todos conspiram contra todos e o favorito do pai não tem as mínimas condições de reinar, mas a disputa verdadeira não é somente pelo trono. Dá-se entre Henry e Eleanor, entre Peter O’Toole e Katharine Hepburn. O rei e a rainha não resolveram o impasse de seu casamento fracassado e os atores entendem o texto e todas as suas sutilezas. Voz, presença cênica, olhares. O’Toole e Katharine formavam a própria realeza de Hollywood. Ela ganhou seu terceiro Oscar, dividido com a Barbra Streisand de ‘Funny Girl’. Ele foi indicado, mas não levou, perdendo para o Cliff Robertson de ‘Os Dois Mundos de Charly’, numa daquelas vezes em que a academia, escandalosamente, sacrificou o melhor em funçã0 da representação do ‘deficiente’ (Charly é um retardado que, sob efeitos de drogas, vive um breve momento de ‘normalidade’, estou sendo duplamente incorreto, reconheço, antes de retornar à sua vida meio vegetativa). Gente, queria que  ‘O Leão no Inverno’ não terminasse, porque queria ver ve “Kate’ e ‘O’Toole’ dando aquela aula de interpretação para cinema. E não apenas eles. Numa cena, o jovem Anthony Hopkins, o herdeiro cujo trono está por um fio, vai ao quarto do rei da França, o jovem Timoty Dalton, em busca de apoio. Desenha-se ali, sem nenhuma referência direta, que houve um vínculo homossexual entre ambos, quando Hopkins foi hóspede no castelo do ainda príncipe Dalton. Hopkins é magnífico. Há um forte subtexto sexual permeando as relações de poder e aquela Idade Média ainda tem o pé no primitivo. Reis e rainhas caminham entre galinhas que cacarejam e cães que mijam nos salões dos castelos. Numa grande cena, Katharine tem um monólogo em que reflete sobre o embate entre civilização e barbárie. O homem faz a guerra porque é mais fácil odiar do que amar. A cena reflete aquela outra em que ela, recém chegada ao castelo, diz ao marido que tem de lhe confessar – Eleanor nunca gostou dos três filhos que tiveram. Gostava da filha adotiva, que agora virou amante de Henry. Anthony Harvey foi montador de Kubrick (‘Lolita’ e ‘Doutor Fantástico’). Confesso que agora estou surpreso. Acabo de ir ao Dicionário de Cineastas, de Jean Tulard, em busca de mais informações sobre ele e encontrei o seguinte – Tulard elogia o pastiche de Sherlock Holmes em ‘Esse Louco Me Fascina’ e diz que ‘O Leão no Inverno’ é ‘magnífico’. E não é que tem razão? Errados estavam aqueles críticos que, nos anos 1960,  preocupados em avalizar o ‘novo’, não tiveram olhos – nem ouvidos – para obra tão complexa e fascinante.