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Luiz Carlos Merten

25 Abril 2012 | 13h36

Tenho feito algumas entrevistas bem interessantes por telefone, no Brasil e no exterior, nos últimos dias (e horas). Uma delas foi com Rubens Ewald Filho, e o Rubinho me confessou que tem revisto muita coisa, aproveitando para fazer a revisão de filmes e autores. Isso o tem levado a repensar não só o cinema, como a própria vida. É uma coisa que faço sempre.  Sou hoje feito de dúvidas, certezas eu tinha aos 20 anos. Também tenho revisto muita coisa, mas não em DVD. Prefiro a TV paga, na qual, anteontem à noite, viajei nas imagens de ‘Colors’, As Cores da Violência. Estava zapeando e apareceu aquele franguinho. Era o jovem Sean Penn. Sei que ele é bom, mas me permitam achar que, com a idade, Penn ficou um pouco intenso demais para o meu gosto, muito ator do método, e com tendência a ser careteiro. Em ‘Colors’, ele é o parceiro jovem de Robert Duvall, que não tem muita paciência com esse garoto que acha que sabe tudo. Em duas ou três cenas, o velho dá uma prensa no guri, até extrair dele um pedido de desculpas. Penn era tão bom. Na verdade, olhando para ele, tinha a impressão de ver o próprio diretor Dennis Hopper, quando jovem. Dennis Hopper! Ele surgiu à sombra de James Dean em ‘Juventude Transviada’ e ‘Assim Caminha a Humanidade’. Foi malfeitor em vários westerns de Henry Hathaway, incluindo em ‘Bravura Indômita’, que prefiro à versão dos irmãos Coen (e Robert Duvall era outro dos coadjuvantes do filme). Dennis Hopper parecia condenasdo a ser um ator em busca de um personagem quando, com ‘Sem Destino’, no fim dos anos 1960, ele encontrou sua voz – a de diretor/autor. O filme criou um novo modelo de marginal na produção de Hollywood, o hippie com as drogas e a moto. Nunca vi, nem na TV, o filme ‘peruano’ de Hopper, ‘The Last Movie’. Gosto medianamente de seu noir – ‘Hot Spot’, Um Lugar Muito Quente, com Don Johnson e a femme fatale Virginia Madsen, imersa naquilo que meu colega Jotabe Medeiros chama de ‘batismo da sarjeta’. E gostei de rever ‘As Cores da Violência’, sobre as guerras de gangues em Los Angeles. As cenas de Sean Penn com Maria Conchita Alonso são tão boas quanto as dele com Robert Duvall e, no desfecho, um Penn um pouco mais maduro manifesta o mesmo cansaço de Duvall em relação a um parceiro mais novo e intransigente. Em meados dos anos 1980, Dennis Hopper corria o risco de se haver estereotipado. Foi quando David Lynch lhe ofereceu seu melhor papel como ator em ‘Veludo Azul’, que, para o meu gosto pessoal, também é o melhor filme do diretor. Confundiram-se os dois, Sean Penn e Hopper, o ator e o autor, enquanto revia ‘Colors’. E eu curti demais.

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