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Cultura » O jovem Bertolucci

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Luiz Carlos Merten

29 Outubro 2006 | 14h04

Também ontem, em vez de ir à tradicional feijoada da Mostra, preferi ir ao Olido, à tarde, para ver Prima della Rivoluzione, de 1964. Nunca havia visto o filme do Bertolucci no cinema. Queria ter a sensação de vê-lo na telona, e não no DVD. Aliás, comentei o filme com o Antônio Gonçalves Filho ao chegar aqui na redação do Estado, de onde estou postando este texto, e ele me disse que viu no fim de semana o primeiro Bertolucci, A Morte – La Commare Secca, que acaba de sair em DVD pela Versátil. Toninho amou o filme, mas achou muito pasoliniano (Pier Paolo escreveu o roteiro). Deve ser por isso que continua bom. Prima della Rivoluzione me decepcionou, ao contrário de I Pugni in Tasca (De Punhos Cerrrados), do Bellocchio, de 1965, que continua muito forte – mais forte, até. Prima della Rivoluzione ficou datado, mais até esteticamente do que do ponto de vista da política. Aquela coisa da narração fragmentada (e da montagem sincopada típica de Godard), as tiradas literárias, as declarações de amor ao cinema, tudo me pareceu muito pueril, muito anos 60. A própria ligação do herói, Fabrizio, com a tia, Gina, é muito esquemática – e faz sonhar com o que Bertolucci poderia fazer hoje se adaptasse, para valer, A Cartuxa de Parma, de Stendhal. O filme é parcialmente stendhaliano, parcialmente autobiográfico. Aquele pequeno burguês enojado, que sonha com a revolução, é Bernardo, mas Fabrizio não vai ao limite, como Bertolucci talvez gostasse que fosse. Curiosamente, pode-se dizer que o diretor também não foi. Me lembro que, em Porto Alegre, quando ele recebeu o Oscar por O Último Imperador, agradecendo à Academia de Hollywood e à América por seu ‘seio generoso’ (generous breast, foi a expressão que usou), escrevi no Diário do Sul uma matéria cujo título era ‘O revolucionário que entrou para a academia’. Me parece agora que há algo de premonitório na autocrítica que se pode retirar do testemunho geracional do Bertolucci em Prima della Rivoluzione. Neste sentido, foi legal ter visto o filme. Talvez o público do Olido não tenha compartilhado comigo esta impressão, porque foi uma debandada. Muita gente foi embora, mas eu achei no mínimo curioso ver o Gianni Amico, ator no filme (e ele foi historicamente um grande amigo do Cinema Novo) dizer aquelas coisas. Amico faz o amigo do Fabrizio que vai ao cinema com ele. Assistem a Uma Mulher É Uma Mulher, do Godard, e no final ele diz que o filme, uma comédia musical, é mais político do que os filmes de Carlo Lizzani e Francesco Rosi (e ambos estão na retrospectiva do cinema político italiano na Mostra). Mais curioso ainda é ver o Amico gritar que a vida, sem Rossellini, é impossível. Anos mais tarde, quando o entrevistei sobre Os Sonhadores e revelei que amava Visconti sobre todas as coisas, o Bertolucci me disse que era uma diferença grande entre nós, porque ele amava Rossellini. Registrei o que ele disse no texto que saiu no Estado, mas aquilo não me marcou. Não me pareceu sincero porque, no fundo, sempre achei o Bertolucci muito viscontiano (e as cenas da ópera permanecem as melhores de Prima della Rivoluzione). Restrições à parte, o filme, mesmo me decepcionando, foi muito interessante pelo que me revelou sobre o autor. Fortaleceu meu sentimento sobre Bertolucci. O que mais gosto não é o de O Conformista nem de O Último Tango, mas o de Beleza Roubada e Os Sonhadores. A volta à utopia. Beleza Roubada é o Nós Que Amávamos a Revolução do Bertolucci. A morte do Jeremy Irons, a destruição do sonho de Maio de 68, me dói mais do que… Deixa pra lá. Vou terminar me emocionando demais.