Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » O jogo de cena de Dercy

Cultura

As informações e opinões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Cultura

O jogo de cena de Dercy

Luiz Carlos Merten

18 Novembro 2007 | 13h54

Todo ano, o Vitória Cine Vídeo homenageia grandes personalidades do cinema brasileiro. Este ano, a homenageada foi Dercy Gonçalves. Passei minha infância assistindo aos filmes de Dercy, mas nunca havia estado tão perto dela como na coletiva que concedeu na quinta-feira à tarde, horas antes da homenagem, quando recebeu, naquela noite, seu Marlin especial no Cine-Teatro Glória lotado. Aos 100 anos, Dercy continua a mesma desbocada de sempre, mas ela não liga para os palavrões que profere e diz que palavrão é a miséria, a doença, a fome. Achei muito interessante a desmistificação que Dercy faz de si mesma. Quando pedem sua opinião ou dizem que sua vida é um exemplo, ela diz que não é exemplo de coisa nenhuma, que as pessoas têm de se amar e descobrir o próprio potencial, em vez de tentar ficar copiando a ela (ou a quem quer que seja…). Dercy assume que nunca teve educação, que não freqüentou escola, mas diz que em matéria de vida ninguém ganha dela. Ela fala muito em verdade, mas no final admitiu que é atriz o tempo todo e está sempre representando. Aquilo é uma máscara, portanto, uma persona de que ela, a despeito de tudo, não se desvencilha (nem quer se desvencilhar). Isso me lembrou o ‘Jogo de Cena’ do Coutinho, os limites entre verdade e mentira, entre ficção e documentário. Coutinho diz que tudo é verdade, quando até a mentira é incorporado com sinceridade (e convicção). Tiro meu chapéu para o jogo de cena de Dercy Gonçalves. Achei sensacional. A propósito, ela é tema de DVD dirigido pelo Boni – o da Globo, como acrescenta – e também não pensa duas vezes ao escolher aquilo de que mais gosta, entre o muito que fez (em teatro, cinema e TV). Dercy tem uma preferência toda especial por ‘A Grande Vedete’, que Watson Macedo dirigiu em 1958 (um ano depois de ‘Absolutamente Certo’, de Anselmo Duarte). Aliás, não apenas Anselmo, mas Carlos Coimbra, que também biografei na Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial, me diziam que não era possível dirigir Dercy, porque ela não decorava textos e improvisava suas falas. (Coimbra a dirigiu em ‘Se Meu Dólar Falasse’.) Em ‘A Grande Vedete’, ela faz essa vedete decadente que se apaixona pelo noivo de uma das coristas de sua companhia, um jovem talentoso que escreve uma peça (e ela quer fazer a mocinha). Se é verdade que a Atlântida, em suas chanchadas, criou uma estética da paródia, então pode-se dizer que Janete, a personagem de Dercy neste filme, é a Norma Desmond do cinema brasileiro e Watson Macedo fez o seu ‘Crepúsculo dos Deuses’. Só para concluir sobre Dercy. Achei muito curioso quando ela disse que não fez somente comédia (ou chanchada) e também criou uma Dama das Camélias. Não consigo imaginar Dercy na cena da morte. Mesmo no drama mais intenso, ela devia incorporar cacos que faziam o público estourar de rir. Mas tenho de fazer uma confissão – mais do que Dercy eu adorava Violeta Ferraz, de quem era fã na fase áurea das chanchadas da Atlântida. Até hoje me lembro da entonação de Violeta Ferraz – aquela figura felliniana, mulher de buço, uma nordestina arretada e autoritária, mas com coração de ouro – gritando que o petróleo é nosso, no fim do filme de Watson Macedo, ou então em seu maior papel, em outro filme do tio da lendária Eliana Macedo – ‘Carnaval em Marte’, que parodiava a disputa espacial entre EUA e URSS. Três ou quatro anos depois, Carlos Manga fez ‘O Homem do Sputnik’, com Oscarito e Norma Bengell, na célebre imitação de Brigitte Bardot. Eram outros tempos do cinema brasileiro. Tudo ia mudar nos 60, mas nos 50 os reis de lata da chanchada (Carlos Manga, Watson Macedo) davam as cartas num tipo de cinema debochado e popular que não se perdeu, mas foi se transformando até virar um estilo de humor ainda vigente na TV.