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Cultura » O intrépido Raoul Walsh

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Luiz Carlos Merten

03 Janeiro 2011 | 12h37

É curioso que tenham sobrado, de meus textos antigos, muitos que foram produzidos rapidamente, sob o impacto que me causaram as mortes de artistas que admirava. O caso de Raoul Walsh era especial. Foi sobre ele o primeiro texto de cinema que escrevci, sobre ‘Um Clarim ao Longe’ (A Distant Trumpet, de 1964), no Mural LIvre da Faculdade de Arquitetura da UFRGS.

Foram muitas as cruzes no caminho em 1980. Artistas, pensadores, estadistas – quantos desapareceram no ano passado, deixando um legado cultural ou humano da maior importância. A morte mais sentida foi, de longe, a do ex-beatle John Lennon, que tombou assassinado, vítima do ódio irracional – logo ele, que falava de paz e liberdade em suas canções. A morte mais obscura foi também a última do ano, pouco antes de iniciar-se 81. Foi a morte do cineasta americano Raoul Walsh, que morreu às últimas horas do dia 31 de dezembro, em seu rancho da Califórnia, de um ataque do coração.

         Para muitos, a surpresa talvez seja saber que, recém agora, morreu o velho mestre de tantos faroestes, policiais, filmes de guerra e até algumas comédias, filmes onde a ação correu sempre parelha com a lucidez. Afinal, há 17 anos Walsh estava inativo para o cinema, mas não na vida. A partir de ‘Um Clarim ao Longe’, sua última obra – e por que não dizer uma obra-prima, apesar da presença do canastrão irrecuperável Troy Donahue? – Walsh descobrira outro meio de expressão, trocando o cinema pela literatura e recebendo altos elogios dos críticos por ‘A Cólera dos Justos’.

         O autor morreu aos 88 anos – segundo outras fontes, aos 93, pois há controvérsia quanto à data de nascimento, se foi em 1893 ou 88 -, sem realizar seu sonho, que era, exatamente, adaptar para a tela esse romance cheio de conflitos psicológicos, passado no Oeste após a Guerra Civil, quando se iniciava uma era de transformações sociais e as ferrovias, os bancos e os grandes capitalistas começavam a devorar os pioneiros. Mas Walsh conseguiu sobreviver de cinco anos a John Ford e de que quase três a Howard Hawks – os outros dois cineastas com quem ele formava uma espécie de tripé do cinema americano clássico, vindo todos dos tempos heróicos do cinema silencioso e desenvolvendo um estilo, uma visão de mundo através do cinema sonoro.

         Como Ford e Hawks, Walsh também amava o faroeste, tendo encerrado sua carreira com o citado ‘Um Clarim ao Longe’, onde o mocinho Matt Hazard conquista a mocinha e o respeito do chefe índio, sendo este, verdadeiramente, o tema do filme: todo homem, seja branco, preto ou índio, tem direitos e responsabilidades, fundamentalmente tem direito a sua dignidade e ao respeito dos outros. Ao realizar esse filme em 1964, Walsh já passara dos 70 anos, mas o entusiasmo era de um jovem descobrindo a máquina de filmar, e jovens eram também os personagens.

         Essa juventude do herói é que diferencia Walsh dos demais mestres de sua geração. Os personagens de Ford e Hawks envelhecem junto com os autores, que os olham com ternura, uma pitada de humor, outra de amargura. Mas de ‘O Intrépido General Custer’, de 1941, onde desenvolveu magistralmente o tema da honra, até ‘Um Clarim ao Longe’, onde se redimiu dos excessos da caracterização de Erroll Flynn como Custer, reabilitando o índio, Walsh recusa o envelhecimento e olha a morte como um incidente inevitável na vida do homem. É um cineasta dos tempos heróicos do faroeste. A era de desmistificação do gênero não encontrará nele um de seus poetas. Antes disso, Walsh já se terá aposentado.

         A carreira de Walsh se divide em três fases. Uma primeira, de aprendizado técnico e humano, a segunda que cobre os anos de 1930 a 1950, quando ele se tornou um dos pilares dos estúdios da Warner e a fase final, dos grandes filmes coloridos. O cineasta realizou filmes de praticamente todos os gêneros: filmes de boxe, de guerra, de gangsters, de aventuras, faroestes. Em todos eles, a ação é uma constante. Mas ela não é só ação física. Também é ação moral, e essa moralidade – nada a ver com ranço moralista – é que termina encerrando o sentido profundo do cinema de Walsh.

         O seu clássico de 1949, ‘Fúria Sanguinária’, encerra o que talvez seja o mais extraordinário estudo psicológico de um personagem de filme de gangsters. James Cagney interpreta o herói edipiano, Cody Jarrett, que não consegue fugir à dominação da mãe. Na cena culminante, Cody é perseguido pela polícia. Sobe até o terraço de um edifício onde existe um luminoso em forma de globo terrestre. E é agarrado ao globo que ele pronuncia a frase célebre, ao ser metralhado pelos policiais:    “Cheguei lá, mãe, bem no alto do mundo”. É um momento extraordinário de cinema e psicologia.

         Muitas vezes, ao longo de sua carreira, Walsh é contraditório. Exalta o jovem e arrogante general Custer, mas também é capaz de assinar a apaixonada defesa do índio que é ‘Um Clarim ao Longe’. Faz um que outro filme revelando talvez uma inspiração militarista, mas também realiza o pungente testemunho contra a violência da guerra que é ‘Os Nus e os Mortos’, baseado no romance de Norman Mailer. Cria personagens masculinos sob medida para atores de grande presença como Cagney, Flynn, Humphrey Bogart, Gary Cooper, Clark Gable, o próprio John Wayne, que ele dirigiu no princípio da carreira de ambos, mas não esquece a mulher. Yvone de Carlo, Virginia Mayo, Ida Lupino, Jane Russell e a esplêndida Suzanne Pleshette do seu último filme, ficam lhe devendo figuras memoráveis de mulher.

         Ao contrário de Hawks, que achava que para o homem mais importante é a profissão e, para a mulher, o homem (ver ‘Hatari!’), os filmes de Walsh não estabelecem nenhuma falocracia, nem é um misógino o autor. O sexo e o equilíbrio homem-mulher o perseguem e levam muitas vezes a desafiar convenções hollywoodianas, criando mulheres de rara fibra, feministas antes do rótulo e verdadeiras precursoras dos modernos movimentos de emancipação. Basta lembrar da Mae West de ‘Sereia do Alasca’ ou a Yvonne De Carlo de ‘Meu Pecado Foi Nascer’, que na França se chama ‘A Escrava Livre’ (Band of Angels, de 1957).

         A carreira de Walsh começou no tempo de Griffith, para quem ele foi ator no importantíssimo ‘Nascimento de Uma Nação’, de 1915. Um acidente durante a filmagem de ‘A Vida de Villa’ custou-lhe um olho e a carreira de ator: Walsh vestiu uma venda sobre o olho direito e passou para trás das câmaras (outro grande cineasta, o alemão Fritz Lang, também usava uma venda sobre o mesmo olho). Um dos primeiros filmes, a primeira versão de ‘O Ladrão de Bagdá’, com Douglas Fairbanks, em 1924, foi um dos maiores sucessos da época. O prestígio não parou mais de subir e Walsh recebeu na década de 30 um convite oficial para filmar na Alemanha de Hitler. Ofereceram-lhe o mundo para ser o cineasta do Terceiro Reich, mas ele recusou – “por incompatibilidade com a ideologia nazista”, confessou mais tarde.

         Hoje, poucos se lembrar dessas histórias sobre Walsh, cujos filmes só passam na TV nas sessões de aventuras, não merecendo mais do que duas ou três linhas de críticos enfastiados, mais atentos à novidade da última estação. Mas o cinema, um veículo popular que adquire sempre, mesmo por linhas tortas, um sentido ideológico, deve muito ao talento de Walsh. Admirador de Shakespeare, capaz de citar de cor monólogos inteiros de Macbeth (sua peça preferida), nunca colocou uma citação nos seus numerosos filmes, “pois trabalho para o grande público”. Só isso define as concepções de Walsh como um grande mestre do passado, mas faz parte do mistério e fascínio do cinema o fato de que muitos de seus filmes, revistos, revelam-se vivos e até mesmo atuais. Ao mestre desaparecido, o carinho de quem recebeu dele as primeiras lições de cinema nas velhas matinês de casas também desaparecidas: o Rival, o Orfeu (hoje Astor), o Eldorado.