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O intendente… Como é mesmo? Spartacus?

Luiz Carlos Merten

02 Fevereiro 2009 | 17h06

PARIS – Muito interessantes as analogias que Nei Duclós faz entre ‘Spartacus’ e ‘O Intendente Sansho’. Nunca havia pensado assim, mas faz sentido. Vocês sabem que Masaki Kobayashi é meu diretor japonês favorito e que, no limite, se tivesse de escolher um só filme do Japão, não hesitaria um minuto ao selecionar ‘Rebelião’, cujo desfecho, a cena decisiva do embate entre Toshiro Mifune e Tatsuya Nakadai, faz parte das minhas emoções inesquecíveis no cinema. Mas para que reduzir tanto o círculo das paixões? Gosto de Kurosawa, de Ozu e de Kenji Mizoguchi. Ontem, depois de rever ‘O Intendente Sansho’ – e enquanto eu via a dona do restaurante grego em que jantei dançar o sirtaki -, pensei como, afinal de contas, Mizoguchi é reconhecido como um criador de personagens femininas, mas ‘O Intendente Sansho’ é o filme em que ele cria seus mais fortes personagens masculinos. O filme é um painel histórico, como outros do grande diretor, mas filtrado pelo melodrama. Todo o filme é uma história de luta e sacrifício, de morte e redenção. O herói e a irmã são separados da mãe, que é prostituída, após o pai cair em desgraça, por seu apoio aos pobres e desvalidos. ‘Seja duro consigo e generoso com os outros’, é a frase que o protagonista ouve do pai. Vira o sweu farol. Existe coisa mais contracorrente do que isso, no mundo atual? Ainda bem que o cinema ainda tem essas lições de grandeza para nos dar. Toda a estrutura de ‘O Intendente Sansho’, todas as mortes convergem para que, no final, ocorra o reencontro entre mãe e filho, como em um milhão de melodramas (mas sem a classe de Mizoguchi). Falei ontem na serenidade e limpidez da mise-en-scène do grande diretor, mas essa é uma construção, uma virtude adquirida durante o filme. ‘Sansho’ começa caótico, com flash-backs cujo fio é difícil de seguir. Depois, sim, as coisas vão se harmonizando e a plasticidade e serenidade vão ganhando espaço. Que pena que não tenha aqui o meu Jean Tulard. As histórias de Ozu e Mizoguchi têm algo de triste. Ambos morreram no auge, um com 60 anos, o outro com menos (56 anos, acho). Deram duro para se impor numa estrutura à qual chegaram em posições inferiores. E ambos bebiam demais, quem sabe para enfrentar a pressão de ser Ozu e Mizoguchi. A generosidade de um filme como ‘O Intendente Sansho’ vem de encontro àquilo que Van Gogh escrevia para seu irmão Theo. Vincent queria pintar para consolar. Mizoguchi filmava para consolar. Que filme, ‘O Intendente Sansho’! Um dos cem mais belos de todos os tempos, com certeza.