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O Inocente, na despedida da retrospectiva de Visconti

Luiz Carlos Merten

14 Março 2018 | 07h05

Termina nesta quarta, 14, a grande retrospectiva de Luchino Visconti no CineSesc. Às 4 da tarde, passa seu último longa, O Inocente, adaptado do romance de Gabriele D’Annunzio. E, no sábado, 17, completam-se 42 anos da morte de Visconti. Seu último filme! Ele morreria antes da estreia, e o filme produziria uma polêmica sem fim. Por que D’Annunzio? Teria sido Visconti um d’annunziano de carteirinha na juventude? Moravia e Pasolini não viam nenhum valor na obra do escritor. Visconti, sim, embora separasse o artista do homem, e desprezasse o último por sua retórica. D’Annunzio cultivava Nietzsche e o super-homem, apoiava o fascismo. Dois biógrafos de Luchino, Monica Sirling e Bruno Villien, veem outros motivos para a escolha. Por causa da doença, Visconti andava de bengala, tinha dificuldade para se fazer entender, estava semiparalítico. Para complicar, sofreu uma queda e passou a depender da cadeira de rodas. A ação do livro passa-se em poucos locais, o que lhe era favorável, e também a obra é percorrida pela pulsão da morte, exatamente como Visconti se sentia naquele momento. Em 2 de novembro de 1975, Pier Paolo Pasolini foi assassinado na praia de Óstia. Percerbiam-se signos de uma violência (fascista?) que dividia os italianos – até que ponto o mundo dividido de 75 tem a ver com o de 2018? Tullio, o protagonista de O Inocente, carrega uma violência muito forte. Pensa ter sido traído pela mulher, e quando ela engravida acredita que o filho, o inocente, não é dele. Isso precipita a dupla tragédia do desfecho, e mais não conto para não ser acusado de spoiler – mesmo que se trate de um livro. (No caso de Maria Madalena, que estreia amanhã, 15, sabiam que Cristo morre no final? Não, na verdade ele ressuscita.) A morte em O Inocente, a morte de Visconti. Tullio é devorado pela própria decadência. E Visconti? Freud superpõe-se a Marx. Os relatos daquele 17 de março não diferem. Visconti interrompeu a montagem do filme. Estava gripado, cansado. Não se levantou. Ouviu diversas vezes a Segunda Sinfonia, de Brahms. Conta a lenda que teria dito à irmã, Uberta, ‘Agora, chega’, Adesso basta, como Rocco, correndo atrás de Ciro, diz ‘Tutto è finito’, tudo acabou’, quando descer aquela porta de ferro, em Rocco e Seus Irmãos. Como metteur-en-scène da própria morte, Visconti virou-se para o lado, e morreu. De novo, a filmagem havia sido um inferno. Ele queria Alain Delon e Romy Schneider para o elenco, mas ambos estavam comprometidos com outros filmes e Visconti teve teve de se contentar com Giancarlo Goiannini e Laura Antonelli. Sentia-se traído pelo amante, Helmut Berger, que fora filmar A Inglesa Romântica, e Visconti considerava Joseph Losey seu maior inimigo. Reconhecia seu gênio, mas tanto Losey quanto ele queriam adaptar Em Busca do Tempo Perdido. Seriam diferentes abordagens, mas o projeto de um inviabilizou o de outro, e o universo de Marcel Proust era o de Visconti. Durante a filmagem, ocorreram coisas. O fiel Piero Tosi, colaborador de longa data, criou um vestido para Laura baseado na descrição do figurino de Oriane de Guermantes por Proust. Visconti, que não conseguia lhe passar exatamente os detalhes adicionais que queria, escreveu-lhe, cheia de garranchos, por causa da mão, uma carta dura. Traditore! E ainda houve o episódio do véu. Visconti queria que Tullio/Giannini ajustasse o véu no chapéu da mulher, mas de um jeito que expressasse sua violência e amassasse o rosto de Laura Antonelli. Visconti tinha até um modelo, a escultura de Metardo Rosso, mas não conseguia mostrar ao ator o que queria. Giannini tentava, mas Visconti não ficava – não ficou – satisfeito. Tudo isso fez transbordar a dor, a amargura. Quarta é dia complicado por causa das estreias. Tenho outros compromissos, também. Pode ser difícil, mas com certeza não será impossível. Vou tentar (re)ver O Inocente, à tarde, no esplendor da telona. Não sei quando nem se terei essa oportunidade, mais uma vez.