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O Inocente, a beleza dos corpos em Visconti

Luiz Carlos Merten

14 Março 2018 | 23h52

Lembro-me que, pelo fim de 1978, talvez 79, fiz uma lista de melhores do ano. Morava em Porto Alegre e até acho que estava na entressafra de minha vida, um período longo, de vários anos, em que fui trabalhar em outros setores do jornalismo e deixei de escrever sobre cinema. Era bem mais jovem e, no íntimo, sabia que ia voltar. Era só uma questão de tempo. Foi. Lembro-me de haver escolhido Marília e Marina, Fuga de Alcatraz, A Mulher Descasada e O Inocente. Com exceção de Don Siegel, com Clint, os demais filmes já apresentavam um recorte protofeminista, discutindo a mulher na sociedade. Fui rever hoje O Inocente na retrospectiva de Visconti no CineSesc. Tomei um choque. No outro dia, na saída de Rocco e Seus Irmãos, fui abordado por um garoto que me cobrou – Rocco é mesmo ‘meu’ Visconti? O dele é O Inocente. Jennifer O’Neill corre na noite, naquele jardim. O último plano filmado pelo grande Luchino. Com base em Gabriele D’Annunzio, a história de um machista que tenta impor sua amante à própria mulher. Quando ela, por sua vez, arranja outro e tem um filho com ele, Tullio/Giancarlo Giannini surta. A contestação do modelo patriarcal é demais para ele. Visconti e o sexo, as mulheres. Nadia/Annie Girardot, naquele porão, em Rocco, mostrando as pernas e fazendo seu jogo de sedução com os garotos virgens. Tullio investigando o corpo da mulher que desprezou durante tanto tempo. Laura Antonelli, Giovanna, o sexo frontal. Marc Porel, o amante escritor – o próprio D’Annunzio? -, também frontal, com tudo à mostra, e põe ‘tudo’, na cena da ducha. Visconti morreria antes da estreia de O Inocente, em 1976. Estava preso à cadeira de rodas, talvez ardendo de desejo e com a libido a mil. Isso explica a transgressão, a beleza daqueles corpos nus. E o filme é forte. A decadência da aristocracia, a falência dos Tullios desse mundo, sem outro projeto que não o poder. Mandar, e matar. Fiquei doido por O Inocente. Rocco pode continuar sendo o filme da minha vida, o ‘meu’ Visconti, Mas sinto que vou ter de repensar a classificação dos demais títulos da minha lista. E ah, sim, a boa nova. Simone, do CineSesc, me informou que, depois de Tiradentes, que começa amanhã, talvez tenhamos Visconti de volta no feriadão da Semana Santa. Havia me esquecido, e é importante. A mão que folheia o livro, nos créditos iniciais, é a de Visconti.