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O importante é amar (Zulawski)

Luiz Carlos Merten

10 Outubro 2017 | 11h39

RIO – Mantenho a procedência, porque estou redigindo daqui, mas este não será um post sobre o Festival do Rio. Estão ocorrendo em São Paulo dois ciclos importantes – duas retrospectivas. A de Andrzej Zulawski, no Cinesesc e a de Patricio Guzmán, no Belas Artes. Zulawski foi um diretor polonês, nascido em Lvov, que pertencia à Ucrânia – estou com preguiça de procurar, mas temo haver dito aqui, no outro dia, que nasceu na antiga Iugoslávia. Morreu em Varsóvia, em fevereiro do ano passado, aos 76 anos, mas levou boa parte da sua carreira na França. Guzmán é chileno, exilou-se, depois do golpe de Pinochet, na França e hoje creio que se divide entre Paris e Santiago, onde organiza um importante festival de documentários. Guzmán ainda está em São Paulo, onde ontem participou de um debate mediado por Luiz Zanin Oricchio, que, me informou o Dib Carneiro, fazia aniversário. Parabéns, Zanin. Zulawski, por sua abertura para o fantástico, talvez esteja mais para outro chileno, Alejandro Jodorowski, e não por acaso o polaco/francês fez um filme chamado Cosmos, que muita gente compara a Duna, que foi um projeto inacabado do chileno (além de um filme ruim de David Lynch). Zulawski sempre foi controvertido e precisou se exilar, por causa de seu imaginário, fortemente erótico (e contestador), que desagradava às autoridades do cinema polonês. Se não me engano, hoje passa Possessão e, amanhã, Cosmos. Isabelle Adjani foi melhor atriz em Cannes pelo primeiro. Faz uma mulher cujo marido chega de viagem. Ele percebe que ela está agindo diferente. Isabelle está tendo relações com um ser monstruoso. O ‘ser’ de Possessão foi criado por Carlo Rambaldi, que também fabricou ET para Steven Spielberg, e o filme tem tudo a ver com o Guillermo Del Toro, A Forma da Água, que abriu o Festival do Rio. Não percam, se passar de novo, O Importante é Amar. Um dos papeis emblemáticos de Romy Schneider. A ex/eterna Sissi faz atriz dividida entre o marido e o amante, que está tentando montar uma versão de Ricardo III para ela. Romy intensa, desejável e atormentada como só ela conseguia ser. Fábio Testi e Jacques Dutronc, seus machos. Fábio não era fraco, não. Filmou com Sergio Leone, Vittorio De Sica, Giuseppe Patroni-Griffi, Mauro Bolognini. Teve tórridos affairs com dois símbolos sexuais, Edwige Fenech e Ursula Andress. Tem cenas bem fortes com Romy. O próprio Zulawaski foi casado por quase 20 anos com Sophie Marceau, com quem teve um filho. Engraçado é que, se vocês procurarem no blog, vão encontrar um post antigo, em que digo que só conhecia o diretor por Contos Imorais, sobre a lendária Condessa Batory, tão sedenta de sangue quanto o próprio Drácula e que ele fez com a filha rebelde de Pablo Picasso – Paloma. Contos Imorais tinha até sexo explícito, numa época em que ainda era tabu. Belíssimas imagens, mas me pareceu um sub Pasolini, com ecos de Decameron e Os Contos de Canterbury. Só depois vi Possessão, O Importante É Amar e Cosmos. Zulawski é um autor que me perturba muito, mas que não conheço tanto quanto gostaria. Se estivesse em São Paulo, podem crer que estaria batendo ponto, todo dia, na retrospectiva dele. Façam-no por mim. Sobre o Guzmán, aguardem o próximo post.