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Luiz Carlos Merten

25 Fevereiro 2008 | 10h32

Chega de Oscar – pelo menos por enquanto… Estou querendo postar uma coisa desde que li o comentário de… (quem?) sobre os filmes do Kurosawa, ‘Céu e Inferno’ e ‘O Homem Mau Dorme Bem’. Já disse que, com todo o respeito que tenho pelo Kurosawa dos anos 50 e da fase final, é o do começo dos 60 que me encanta. Acho ‘Yojimbo’ maravilhoso e ‘Céu e Inferno’ é uma Bíblia do cinema – que o Martin Scorsese, certa vez, quis refilmar, mas desistiu, atirando a bola, se não me engano, para o Walter Salles, que também não foi louco de entrar na canoa furada. Mas o que quero dizer é o seguinte. Existe um livro de Stuart Galbraith IV. Chama-se ‘The Emperor and the Wolf’ e foi lançado em línga inglesa pela editora ff. O Imperador e o Lobo, tradução literal, tem um subtítulo – ‘As Vidas e os Filmes de Akira Kurosawa e Toshiro Mifune’. Acho que é a melhor biografia de gente de cinema que já li, e olhem que gosto muito dos livros de Bruno Villiers e Laurence Schifano (‘Les Feux de la Passion’, este acho que foi editado no Brasil, mas tenho só a edição francesa) sobre Visconti e também do ‘The Adventures of Roberto Rossellini’, de Tag Gallagher, tão documentado que é uma aula de cinema (e de vida). Mas ‘O Imperador e o Lobo’ é especial. Galbraith IV analisa a parceria de Kurosawa e Mifune. Investiga a vida de cada um deles e o trabalho conjunto para tentar responder a uma questão – por que, no momento em que estavam no auge de suas carreiras – após ‘O Barba Ruiva’, lá por meados dos anos 60 – os dois romperam? Kurosawa e Mifune fizeram 16 filmes juntos, incluindo ‘Rashomon’, ‘Os Sete Samurais’, ‘Trono Manchado de Sangue’, ‘Yojimbo’ e ‘Céu e Inferno’. Kurosawa era o Imperador, exigia a submissão de todos, artistas e técnicos, à sua autoridade. Mifune era o Lobo. Ousou contestá-lo sobre a linha de interpretação a seguir em ‘O Barba Ruiva’. Dois gênios, mas duas cabeças duras. Romperam. Nunca mais trabalharam juntos. Foi o que abriu a porta para que Tatsuya Nakadai, outro ator mítico (para mim), dos filmes de Masaki Kobayashi e Eizo Sugawa, ocupasse o lugar que era de Mifune no cinema do mestre. Talvez, se tivessem permanecido juntos, a trajetória tivesse sido diferente. Nakadai não tinha a persona de Mifune e eu duvido muito que o Lobo se ajustasse a filmes como ‘Kagemusha, a Sombra do Samurai’ e ‘Ran’. Tentem ler ‘The Emperor and the Wolf’. É fundamental para se entender a vida e a obra de Kurosawa e Mifune, o cinema que fizeram e o impacto sobre a sua época. Kurosawa, no fundo, queria de Mifune a mesma submissão que John Ford exigia de John Wayne. O Duke aceitava – viram o documentário sobre os dois? -, o Lobo jamais se curvaria, nem mesmo ao Imperador. É uma dupla biografia, mas para mim é um romance que leio emocionado. Parece filme – e do Kobayashi, ‘Rebelião’.