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Cultura » ‘O Iluminado’ sem luz

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Luiz Carlos Merten

12 Novembro 2007 | 08h16

Fui ver ontem ‘1408’, um pouco porque tenho por hábito assistir a todos oas filmes que entram em cartaz – e quando digo todos, são todos mesmo –, mas também com a curiosidade redobrada, porque Rodrigo Fante, da distribuidora Imagem, me disse sexta-feira, na cabine de ‘A Loja Mágica de Brinquedos’, que o filme estava indo muito bem de público. Terror não nega fogo, principalmente quando, ou se, baseado em Stephen King, o Midas do fantástico, embora eu, pessoalmente, ache que ele escreve bastante mal. Enfim, lá fui eu ver o filme de Mikael Hafstrom, o diretor de ‘Derailed’, que aqui se chamou ‘Fora de Rumo’. Estava achando bem razoável, o sujeito que entra naquele quarto e o quarto libera seus medos e fantasias, como se fosse o inconsciente que se abre para suas memórias mais recônditas (e angustiantes). Aí, o Hafstrom começa a defecar, digamos assim. O filme tem dois ou três finais e, quando parece que vai terminar definitivamente, uma pirueta final sugere que, afinal, talvez não fosse só alucinação e isso é Stephen King. Espero não ter tirado a graça de ninguém, embora o que esteja dizendo é que tem reviravolta até na última cena, o que, francamente, não é entregar o ouro – o como e o quê – e também não é novidade para ninguém, neste tipo de filme. Aliás, pirueta por pirueta, havia uma revelação final em ‘Fora de Rumo’ que deixava Clive Owen fora do eixo, lembram-se? Será Mikael Hafstrom um ‘autor’? Saí do cinema pensando que ‘1408’ é o sub-‘O Iluminado’ e que o diretor sueco, coitado, não dá nem para a saída, comparado com Stanley Kubrick, que, por sinal, brigou feio com o Stephen King, que não gostava do filme com Jack Nicholson. King devia achar o filme de Kubrick muito cerebral e terminou fazendo, ele próprio, sua versão – horrorosa – de ‘The Shinning’. Existem interessantes pontos de contato entre ‘1408’ e ‘O Iluminado’ – o escritor em crise, preso num quarto de hotel ou no próprio hotel, perseguido pelos fantasmas (da sua mente e do local). Em ambos os filmes, a mulher, o filho ou filha, a morte. Não estou dizendo que sejam iguais, notem bem, e também não vou ficar destacando outras semelhanças, que se referem à palavra (escrita, em ‘O Iluminado’; falada em ‘1408’). Hafstrom deve ter feito o que Stephen King queria. O público, pelo visto, também estava querendo.

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