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Cultura » O horror, o horror

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Luiz Carlos Merten

31 Julho 2011 | 18h16

Lá vou eu pegar carona nas palavras de Kurtz, Marlon Brando, no ‘Apocalipse’ de Coppola. Estão ocorrendo coisas sobre as coisas não gostaria de me omitir e, ao mesmo tempo, me pergunto se tenho, real.mente, alguma coisa a acrescentar a essa discussão. Nada a ver com o c.. da Sandy – tem pontinho demais aqui – nem com o micro-penis de Enrique Iglesias (com hífen, para a palavra, pelo menos, ficar mais comprida). O furo é outro. O caso do atirador na Noruega mexeu comigo. Estamos tão acostumados a ver esse tipo de horror como expressão da sociedade norte-americana – é sabido que a ‘América’ só consegue resolver seus conflitos pela violência -, mas aí a barbárie vem da extrema direita de um país com fa\ma de civilizado e apontado como pacífico. O assassino – Anders Berhring qualquer coisa – queria ser reconhecido como o nazista mais brutal desde Hitler, pode uma coisa dessas? O caso tem desdobramentos. Foi capa nos jornais de anteontem. Os próprios noruegueses, embora aturdidos, acham legítimo que exista uma extrema-direita no espectro político. É mesmo? Na vizinha Dinamarca, Lars Von Trier, um mestre da provocação, levou a Cannes, em maio, sua polêmica declaração de apoio a Hitler e, sim, disse ele, ’eu sou um pouco nazista’. No dia seguinte, Von Trier estava se desculpando e dizendo que nunca foi antissemita. Seu cinema é a prova disso, mas por que diabos ele foi brincar com um assunto tão explosivo? Isso vai passar, daqui a pouco teremos esquecido dessa provocação, como já esquecemos de outras, mas será que essas coisas devem se resolver assim mesmo? Vamos ser tolerantes com Lars Von Trier, que, afinal, é um grande artista – amei ‘Melancolia’ – e estava só brincando, e vamos ser duros com o sniper de Oslo, é isso? Von Trier não é nazista nem antissemita, o outro, sim, mas o Verbo, as palavras de um e outro estão registradas e documentadas, e não são abonadoras para ninguém. Von Trier fez sua mea-culpa, mais uma prova de que tem consciêrncia, e o problema é que outros, o tal Anders, não tem. Neste quadro, surge o filme da Sérvia que o deputado do DEM, invocando o estatuto da criança, conseguiu proibir e com a mesma velha desculpa de muitos censores – ‘Eu não vi, mas me disseram…’ O filme seria, ou é, um incentivo à pedofilia, cvomo os militares diziamk que ‘A Laranja Mecânmica’, de Stanley Kubrick, incitava à violência. Denunciar a censura, o cerceamento da liberdade de expressão e escolha – deve ter gente querendo ver o filme, eu mesmo espero ver, até como atividade profissional – é a mesma coisa do que defender a representatividade da extrema-direita? Entrevistei Gilles Paquet-Brenner, de ‘A Chave de Sarah’, que abre na terça o Festival de Cinema Judaico para o público. Acontece uma coisa no filme que ér umas das mazis terríveis que já vi (fiquei desmontado). Gilles comentou a declaração de Lars Von Trier, concordou que é um grande artista, disse que é a favor da liberdader de expressão de todos, mas o ‘todos’ dele não exclui o nazismo, com sua herança de 6 milhões de judeus mortos. O nazismo é desumano, uma aberração. Tendo a concordar. O próprio Von Trier concorda. Na entrevista que me deu, em Cannes, ele disse que derrapou na curva como um motorista que perde o controle do carro. Sentiu que estava dizendo/fazendo bobagem, mas não houve margem para volta. O estrago já estava feito. São coisas diferentes, sei, mas todos esses episódios se oferecem às pessoas num mesmo mo(vi)mento. Vou extrapolar e misturar na conversa a nutricionista que matou o cara no volante do carro, aqui em São Paulo. Ela diz que não estava bêbada, mas admite que bebeu (uma marguerita). Foi por isso que fugiu ao teste do bafômetro e ao exame de sangue? Que adianta agora rezar pelo morto e sua família, se é que está mesmo rezando? É um mundo tão absurdo que, no sábado, fui dar uma de proletário, indo de ônibus para o Centro e,. na esquina da Rebouças com a Av. Brasil, um carro, conduzido por outro bêbado, invadiu a pista oposta e se arrebentou no pilar da parada, ferindo uma senhora. O carro lá estava, arrebentado, onde deveria haver uma parada de ônibus. Se fosse em outro horário, de pico, o estragfo seria muito maior. O que eu vejo nisso tudo é uma desumanidade muito grande. Parece que está todo mundo ligado no ‘F…-se’ (o outro). E eu me angustio.