Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » O horror, o horror

Cultura

Luiz Carlos Merten

15 Junho 2009 | 19h29

Fui ver ontem ‘Gloriosa’. Fui com amigos – Gabriel Villela, Dib Carneiro Neto e Cláudio Fontana. Gabriel vive dizendo que Marília Pêra é a grande atriz trágica do Brasil e eu vou contrariá-lo dizendo que Marília pode ter envergadura – física, vocal – para ser trágica, mas prefere ser chancha, o que em si não é nenhum demérito, considerando-se quanto o humor brasileiro é chancho. O problema é que o espetáculo ‘Gloriosa’ transforma Florence Foster Jenkins, que poderia ser uma personagem trágica – a pior cantora lírica do mundo –, numa piada. Eu, pelo menos, não vi nenhuma tentativa de humanização da figura. Os diretores são Charles Muller e Claudio Botelho, os mesmos de ‘Sete – O Musical’ e pode até parecer implicância minha com os caras, mas vivi horas de desespero no Teatro Procópio Ferreira. O palco deve ter, sei lá quantos metros quadrados, que o diretor ocupa com uma decoração detalhista, luxuosa e vulgar. Tem mais quinquilharia inútil na sala de Florence do que em todas as demais peças em cartaz em São Pauilo neste momento, mas a mise-en-scène se constrói no centro do palco, em aproximadamente meio metro quadrado: o tamanho da cabeça do cara que estava na minha frente e que era alto pra burro. Não sei se agradeço ao infeliz, que nem percebeu meu aperto, ou se o amaldiçoo. Afinal, ele me poupou de ver aquela coisa horrível, embora os diretores e a estrela possam dizer que eu talvez estivesse prejudicado, dada a exiguidade do meu ângulo de visão. Sem piada. Em ‘Sete’, uma leitora do blog me espinafrou porque disse que eu não havia entendido a proposta do diretor, a forma como ele abrasileirava o musical made in Broadway. A única coisa que ‘Gloriosa’, malgrado o humor chancho, me comprovou foi a submissão de Charles ao modelo ‘gringo’. Mas, sim, eu entendi, ‘Gloriosa’ não é um musical, embora tenha canto. Não é um musical, não é uma peça. A propósito, o que é mesmo? Marília Pêra pode ter o maior talento do Brasil, mas tem uma só inimiga, e é ela própria. Me desculpem a psicanálise à la analista de Bagé, mas Marília só é boa se for contida (no relho, se preciso). Solta, entregue a si mesma, é um desastre. A peça, quero dizer o texto, a ‘dramaturgia’, é inexistente, mas o público da diva delira vendo-a desafinar, para ser fiel a Florence. A personagem me lembrou Ed Wood e a diva mulher de Charles Foster Kane em ‘Cidadão Kane’, mas lá, tanto no filme de Tim Burton quanto no de Orson Welles, havia o que falta aqui – inteligência cênica. No final, o narrador fala que Florence podia cantar mal, mas na cabeça dela cantava como os anjos (e era amada pelo público). Marília volta ao palco para cantar, agora sim, como Florence acreditava que soltava a voz. Marília canta, divinamente, e o que ela canta? ‘Ave Maria’ de Gounod. Valha-me, Deus! Meu medo é que os críticos da APCA resolvam premiar Marília de novo, como já fizeram com a sua Chanel. A mulher está se enterrando, virando caricatura de si mesma. Mas, afinal, o que há de errado com essa gente de teatro? A pobreza do conceito foi expressa por uma espectadora. Florence encerrou sua carreira cantando no Carnegie Hall, quando recebeu a única crítica de sua carreira. Foi demolidora. A partir daí, ela se isolou, teve um derrame (ou enfarte). morreu. A espectadora gritou – ‘Mas ela foi feliz!’ Foi mesmo? Uma mulher que descobriu tardiamente a fraude de sua vida? Já pensaram que personagem, que riqueza? ‘Gloriosa’ ignora esse potencial e constroi duas horas de redundância em cima de uma só piada. Aliás, duas, ou três. A doméstica mexicana serve para que os diretores, com seu complexo de Broadway, debochem da latinidade. OK. em defesa deles pode-se dizer que a peça, por mais pobre que seja, existe. A doméstica não é uma invenção da dupla, embora lhes sirva muito bem. A atriz Guida Vianna, que faz o papel, vinga-se. O ‘maricón’ que ela grita foi a única coisa verdadeira naquele palco. Curiosamente, naquele momento, a parada do orgulho gay terminava na Av. Paulista com um pobre cara sendo massacrado por punks (que, muito provavelmente, eram mais veados do que ele). Que mundo!