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O horror, o horror

Luiz Carlos Merten

12 Abril 2009 | 10h43

PORTO ALEGRE – Havia gente pelo ladrão, ontem à noite, para assistir a ‘Presságio’ no Arteplex de Porto, no Shopping Bourbon. Adoro ir ao Shopping Bourbon, menos pelos cinemas do Adhemar Oliveira, que são ótimos, do que pela Livraria Cultura. É uma franquia, e São Paulo tem todas aquelas Culturas que vocês sabem, mas seção como a de DVDs de Porto não encontro em nenhuma. Fico louco com os importados quando estou aqui. Será a disposição, mais convidativa? Não sei, mas assim é… Enfim, fui ver ‘Presságio’. Lembro-me de que, na reunião de pauta do ‘Caderno 2’. Jotabê Medeiros havia feito piada. Que filme é esse, quis saber meu editor? Expliquei que era um thriller de ficção científica com Nicolas Cage. Xiiii, se é com ele é mau presságio, vaticinou o Jota. Todo mundo riu (e eu junto), mas o diretor Alex Proyas tem o que se chama de ‘imaginação visual’. Mesmo contra Deus e o mundo, estou disposto a defender ‘Eu, Robô’, que ele adaptou de Isaac Asimov, com Will Smith. Mas ‘Presságio’ não dá. O filme é o coquetel mais bizarro que vi recentemente. A história mistura tudo. Paranóia, apocalipse, evangelho, ETs. Começa em 1959, numa escola recém-inaugurada, onde os alunos são convidados a desenhar como será o mundo dentro de 50 anos. Suas criações são fechadas numa cápsula de tempo. Uma menina, que dá para ver que está perturbada, não desenha, mas escreve uma sequência de números. Décadas mais tarde, sua carta para o futuro cai na mão do filho do astrofísico interpretado por Nicolas Cage. Pai e filho se ressentem na morte da mulher e mãe, num incêndio. Cage termina por olhar os números, escolhe uma sequência. Ó, coincidência. Formam uma data, 11 de setembro de 2001, e o número a seguir é o de vítimas oficiais da destruição das torres gêmeas. Todos os números vão identificando tragédias, e vítimas, inclusive a do incêndio em que morreu a mulher do protagonista. Já que falei em incêndio, é bom se prepararem. As sequências de destruição envolvem sempre fogo, muito fogo, numa metaforização do inferno (que o homem criou e nos aguarda, é o presságio). Restam três sequências, e são de tragédias ainda por ocorrer. A primeira, um acidente aéreo, é não apenas inesperada como de um realismo nos efeitos que é capaz de soterrar o espectador na poltrona. Cage, a partir daí, tenta descobrir quem era a garota que enviou aquela mensagem para o futuro e o que lhe cabe fazer para evitar que ocorram novas tragédias. Ela já morreu – louca, claro -, mas deixou uma filha, com quem o herói se envolve (e a moça tem, por sua vez, uma menina que ouve vozes como o filho de Cage). A partir daí, o suspense original bifurca em mais ou menos 300 vias. A última profecia se refere nada menos do que ao apocalipse final, a destruição da vida na Terra. Conseguirá o herói evitá-la? E quem são os seres sussurrantes, as figuras estranhas que perseguem o filho de Cage e dão ao menino aquela pedrinha preta? Será uma referência distante, uma pulverização do monolito negro na obra-prima de Kubrick, ‘2001, Uma Odisséia no Espaço’? Confesso que estava achando interessante no começo, mas depois que o roteiro passa a atirar para tudo que é lado, compondo – sem querer ser politicamente incorreto – um samba do crioulo doido, como aquele a que referia Stanislau Ponte Preta, aliás, Sérgio Porto, desisti e só fiquei sentado à espera do desfecho (e rezando para que o apocalipse chegasse logo). Naturalmente que ‘Presságio’ desenha um recomeço, mas… O filme entrou bem, muito bem, nos EUA. A se julgar pelo público de ontem em Porto, deve estar indo bem também no Brasil. Ótimo para a distribuidora Paris, que vai fazer um dinheirão, mas é ruim demais, ó xente.