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O horror, o horror

Luiz Carlos Merten

05 Abril 2008 | 10h51

Como todo mundo estou acompanhando o desenrolar do caso Isabela. Ia acrescentar ‘chocado’, mas não seria verdade. Triste é mais exato. As pessoas fazem coisas terríveis. Agora mesmo, vindo para o jornal, vi numa banca a manchete de um jornal – promotor diz que o depoimento do pai é fantasioso. Espero que o caso se resolva logo, porque essa expectativa termina agindo negativamente no nosso imaginário. Favorece o linchamento moral, e isso é uma coisa que eu me recuso a compartilhar. Deus me livre que o pai, ou a madrasta, ou os dois juntos, sejam responsáveis pelo crime hediondo. Terão de conviver com isso. Terão de pagar, dentro da legalidade, claro. Se não forem eles, quem? E por que? Há uma cena de ‘Cleópatra’, de Joseph L. Mankiwicz, em que a serva, a mando de Otávio, tenta matar Elizabeth Taylor. É a serva que prova os alimentos da rainha, e ela deixa de provar o líquido numa taça. Elizabeth Taylor percebe a manobra, a serva se atira a seus pés pedindo perdão. Liz diz serenamente que perdoa e ordena – ‘Agora, beba’. Acho aquilo genial. O perdão não exime ninguém de responsabilidade, ou não deveria. Lembro-me também de ‘M, o Vampiro de Dusseldorf’, obra-prima de Fritz Lang. Peter Lorre faz o matador de meninas. Descoberto, é levado a julgamento pelo tribunal do submundo, naquele porão opressivo no qual o grande diretor projetou o clima da Alemanha que se rendia ao nazismo. O assassino de Lang é um homem enfermo. Numa cena, Peter Lorre grita ‘Alguém me ajude, por favor’ e é um dos grandes gritos de angústia do homem, registrados pelo cinema. Me arripio só de lembrar. Voltando ao caso de Isabela, não sinto, vendo tudo à distância, nem um pouco dessa angústia. Se formos à origem da tragédia grega, veremos que nela tudo ocorre em família. Medéia mata os filhos, Electra trama a morte da mãe, Clitemnestra, para vingar o pai, Agamenon, mas ele também sacrificou Ifigênia. Não sou nenhum especialista no assunto, mas acho que os textos gregos – grandiosos, dramáticos e funestos, cheios de presságios e desgraças –, infundem terror e piedade justamente por isso, porque espelham a imperfeição humana como parte de um jogo no qual os deuses costumam intervir. No limite, chega-se à catarse, à purgação. Qual será a catarse no caso Isabela? Remember a Santa Ceia. ‘Comai e bebei, este é o meu corpo e o meu sangue.’ Remember Mankiewicz. ‘Perdoo, agora beba’ – o fel, o cálice amargo.