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Cultura » O horror, o horror

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Luiz Carlos Merten

10 Outubro 2007 | 10h08

Muita gente me fala do Roda Viva desta segunda-feira, com José Padilha, o diretor de ‘Tropa de Elite’. O próprio Zanin, meu colega Luiz Zanin Oricchio, que participava da bancada de entrevistadores, me disse que achou o Padilha muito articulado e, principalmente, um interlocutor de alto nível. Você pode discordar dele e o Padilha ouve sua argumentação, que rebate ou não. Com Padilha, a coisa não é preto-no-branco – ele não acha que você está com ele ou contra ele, como a maioria dos diretores brasileiros, especialmente os mais jovens. Tive essa mesma sensação quando o encontrei no Rio, na semana passada. Padilha elogiou, no ar, a cobertura do filme no Caderno 2, dizendo que o jornal entrou a sério na discussão sobre o que é um cinema fascista – acusação que tem sido feita ao filme dele. De minha parte, estávamos sentados na tenda do Festival do Rio e eu comentei com o Padilha que um dos problemas de um filme como o dele, mesmo ‘excitante como é, é que o diretor põe seu bloco na rua mas não consegue, garantidamente, fazer com que o público dance conforme sua música. Ele diz, e é um fato, que o Capitão Nascimento não é um herói. Os indicadores estão todos lá, mas quem garante que o espectador vai fazer a leitura ‘correta’? Estou acrescentando este post porque a Eliana Souza, pauteira do Caderno 2, me mostrou uma chamada de capa na edição de hoje de O Globo. sob o título ‘Jovens simulam torturas de Tropa de Elite’, o texto informa que a polícia carioca vai investigar a produção de vídeos caseiros divulgados na internet, com adolescentes simulando torturas, inspirados no filme do Padilha. Os vídeos poderão ser retirados da rede, mas a esta altura o estrago já está feito. É o horror, o horror, como diz Coppola – aliás, quem diz é o coronel Kurtz (Marlon Brando) em Apocalypse Now.