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O horror, o horror

Luiz Carlos Merten

16 Fevereiro 2012 | 05h25

BERLIM – Oito da manhah na Berlinale e eu aproveito, antes de correr ateh o Palast, para tentar recuperar um post que perdi ontem. Com tantos terminais com teclados e guias de indicacoes em ingles e alemaoh, aas vezes me atrapalho e termino, querendo copiar, mandando para o espaco os textos que acabo de escrever. Jah aconteceu isso na sala de imprensa e o tecnico demorou quase tanto tempo para recuperar o texto quanto o que eu levara para escrever. O que escrevi, e repito, eh que vivi ontem talvez minha pior experiencia neste festival. Posso ter gostado mais ou menos desse ou daquele filme, mas sobre The White Deer Plaine, de Wang Quanan, sinto-me impossibilitado de falar, e explico o por queh. Nas sessoes oficiais do Palast, os filmes saoh sempre exibidos com legendas em alemaoh. Apesar de ser descendente de alemaes, nunca me senti atraido pela lingua. Posso falar ingles, frances, italiano, espanhol. Quando os filmes saoh dessas nacionalidades, tudo bem. A legenda poderia ser em farsi, tanto faz. Como o filme era chines, falado em mandarim, naoh tive outro jeito senaoh pegar os fones de ouvido. Explico que havia perdido a sessaoh de imprensa, com legendas em ingles, por uma boa causa – naoh queria perder a coletiva de Xingu, que ocorria na mesma hora. Gostei bastante do filme de Cao Hamburger. Jah o de Wang Quanan, com suas mais de tres horas, me deixou completamente confuso. Gosto de Quanan, que ganhou dois Ursos aqui em Berlim – o de Prata, pelo roteiro de Together, e o de Ouro, de melhor filme, por O Casamento de Tuya. White Deer eh o Novecento do diretor, que conta a historia da China nas primeiras decadas do seculo passado, retratando, por meio da ficcaoh, a passagem do imperio aa Republica e a guerra civil entre os comunistas de Mao e o seguidores de Chiang Kai-shek. Cada vez que pintava uma legenda na tela, e o filme eh abundantemente dialogado, a voz dos tradutores se superpunha aa simetria audiovisual do autor. Eram vozes irritantes e como eles/elas ainda procuravam as palavras na lingua para a qual traduziam, o efeito era um desastre. Naoh sei se o filme tem musica, como o diretor usa os ruidos, naoh percebi, se existe, sutileza na interpretacaoh. O que captei, no geral, foi a historia, meio novelaoh, dos filhos de duas familias, criados como irmaos, e que adultos seguem trilhas diversas. Um vira comunista, o outro permanece aa sombra do pai (e preso aos jogos de poder locais). O filme baseia-se num romance de Chen Zhonshi, autor que, durante muito tempo, foi proibido na China por causa das cenas eroticas de seus filmes. Os dois rapazes se apaixonam pela mesma mulher, um deles, o que fica, eh impotente (mas com ela funciona, o que o tzorna completasmente dependente). A mulher sofre todo tipo de preconceito e brutalidade. Vinga-se usando seu poder de seducaoh sobre os homens. Achei meio novelaoh, uma tipica heroina de novelas das 8, da Globo, mas Quanan eh bom e talvez tenha feito alguma coisa que, naquelas condicoes, naoh consegui captar. White Deer termina com a destruicaoh da aldeia pelos japoneses – inicio do desastroso Flores da Guerra, de Zhang Yimou, baseado no romance de Yang Gering, que tem como fundo a batalha de Nankin e a ocupacaoh da China pelas forcas do Japaoh. Fiquei triste. White Deer era um filme que queria ver. Vi-o nas piores circunstancias. Minha percepcaoh foi afetada por isso.