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Cultura » O horror, o horror

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Luiz Carlos Merten

19 Maio 2007 | 10h27

CANNES – Limite, de Mário Peixoto, terá exibição especial na seção Cannes Classics, na semana que vem. Nunca vi o filme na telona. Aliás, a única vez que o vi foi num vídeo horroroso e eu nem fiquei tão impressionado. Estou louco para ver, não digo rever, Limite, mas estou morrendo de medo. Ou, então, estou pedindo a Deus que mude o perfil dos freqüentadores de Cannes Classics. Se for o mesmo público de ontem à noite, Mário Peixoto e seu cult estão fritos. Cannes Classics exibiu ontem a versão restaurada de Suspiria, de Dario Argento. Havia gente pelo ladrão para ver, e aplaudir de pé, o pai de Asia Argento. Sem nenhum parti-pris, a favor nem contra, mas Dario, com aquela franjinha e aquelas olheiras, é mais bizarro que qualquer psicopata de seus filmes. Enfim, nunca tinha visto Suspiria, nem em vídeo. Achei a coisa mais brega do mundo e, na maior parte do tempo, tinha de me controlar para não rir, o que acho que teria levado aquela multidão a me linchar. No final, Dario Argento foi aplaudido de pé. Fiquei ali uns três ou quatro minutos e depois saí. Longe da sala ainda ouvia os aplausos. Sei bem que filme cult não precisa ser bom, mas Dario exagera – trilha, cores, cenários, interpretação (incluindo a de Alida Valli!), para não falar do roteiro, é tudo horroroso. A cena em que o cão ataca o cego leva a assinatura de Dario, mas só pode ter sido filmada por Ed Wood. Aquela boca de cachorro empalhado é antológica (no sentido inverso). A sessão terminou de madrugada e eu fui caminhando sozinhho até o hotel. Matutava – mas de onde vem o culto a este filme? É verdade que há todo um cinema italiano que os críticos achavam o fim nos anos 60 e 70 e que agora foram resgatados. Os filmes de Lucio Fulci, por exemplo. Continuam ruins, mas ele é provavelmente mais dissecado, hoje em dia, do que Antonioni e Fellini juntos. Não tenho a menor empatia por esse cinema que esculhamba gêneros (até aí, tudo bem), mas também se esculhamba, consciente da m… que é. Confesso que, se for para elogiar Dario Argento, prefiro o de O Fantasma da Ópera, que é bem – para fazer justiça ao título e ao personagem – operístico. Mas Suspiria? Não vi nenhnuma densidade, nenhuma intensidade, nenhuma inteligência em particular. Achei muito banal o tema das feiticeiras (e até me deu saudade de um velho filme do Mario Bava, La Maschera del Diavolo, que foi, senão me engano, o lançador do mito de Barbara Steele). Pensei também em William Castle – Almas Mortas, com Joan Crawford, é uma obra-prima e eu não sabia. Mas pensei mesmo foi em Zé do Caixão, a quem nem admiro tanto. O dia em que algum filme dele for restaurado e exibido em Cannes Classics, o culto a Zé do Caixão, que já existe, vai ser potencializado e para a garotada do mundo todo (o público era predominantemente jovem) ele vai virar o maior gênio da história do cinema.