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O horror da realidade assusta mais que os filmes?

Luiz Carlos Merten

24 Agosto 2008 | 10h53

Severino já caiu matando em ‘Te Doy Mis Ojos’. Ele começa dizendo que o filme é bom e conclui que é ‘meio’ ruim, feito de chavões, mulher apanha do marido etc. Acrescenta que é velhíssimo. Tudo isso era o tema dos posts que tentei, em vão, acrescentar ontem ao blog. Vi, como disse, o filme da diretora Ician Bollain pela manhã. Achava que era homem, um nome estranho, mas a Simone do CineSesc, me informou que é mulher. O filme é de 2003 e ganhou sete Goyas, o Oscar do cinema espanhol naquele ano, incluindo os principais, de melhor filme e direção. Ician trata da violência contra as mulheres, mas, se este assunto lhe fornece uma história, não é necessariamente o tema de “Te Doy Mis Ojos’. A mulher que foge de casa com o filho na abertura do filme apanha do marido. Ela busca refúgio na casa da irmã, que a incentiva a se separar, mas o marido volta choroso, dizendo que mudou e ela cai na lábia dele e volta para o covil do lobo, para apanhar mais. Inician constrói duas cenas que me pareceram fortíssimas. Na primeira, após o retorno ao ‘lar’, a protagonista percebe o descontrole do marido e, louca de medo, encolhe-se toda, para se proteger do golpe que acha que ele vai desferir contra ela. Na segunda, ele a humilha, expõe sua nudez na sacada do prédio e ela, apavorada, mija-se toda. Foi uma cena que me impressionou muito. Não vi nada mais terrível ultimamente, na tela. Mijar-se poderia ser uma coisa divertida, numa comédia – e eu riria, com certeza –-, mas num drama pesado como esse é uma representação da humilhação e da fragilidade dessa mulher. A cena é decisiva – ‘se ha roto todo’, tudo acabou, como ela diz. Vi outro filme, há pouco mais de um mês, não propriamente sobre violência doméstica, mas sobre uma mulher que se impõe ao marido bêbado e violento para realizar o sonho de virar fotógrafa. O filme era ‘Everlasting Moments’, de Jan Troell, que vi na Suécia, em Estocolmo, antes de embarcar para Farö (e a Semana Bergman). O marido no filme de Troell não é como o do filme espanhol, mas em ambos os casos o tema do filme não é a violência, em si, mas a descoberta do olhar feminino. Em ‘Te Doy Mis Ojos’, a mulher brinca com o marido – diz que lhe dá seu corpo, seu sexo, sua boca, seus olhos etc. Ela se entrega, como uma propriedade dele, e o marido reclama seu direito de ‘dono’. Achei isso muito interessante, vindo de umas diretora, de uma mulher. O filme é sobre a recuperação desses olhos que foram dados. Essa mulher precisa se enxergar, se ver a si mesma, (re)adquirir uma identidade, e esse é o tema. A mulher de ‘Everlasting Moments’ vira fotógrafa, a de ‘Te Doy Mis Ojos’ vira guia num museu, analisando quadros nos quais decifra a construção de todo um universo mitológico. Achei o filme de Ician Bollain bem mais complexo (e rico) do que pareceu ao Severino. Não sabia que já havia passado na TV paga. O filme estréia na sexta, dia 29, no CineSesc. Saí do cinema, o próprio CineSesc, passei por uma banca e vi uma chamada na capa da nova ‘Bravo’, sobre as grandes atrações do cinema brasileiro neste ano – ‘Linha de Passe’, de Walter Salles, o filme de Bruno Barreto inspirado no episódio do Ônibus 174. A revista diz que essas ficções têm o pé no documentário. É o inverso do que ocorreu no ano passado, quando os melhores filmes brasileiros do ano – ‘Santiago’, de João Moreira Salles, e ‘Jogo de Cena’, de Eduardo Coutinho – eram documentários nas bordas da ficção. Esse limite também está no filme de Ician Bollain. Sob certos aspectos, ele parece (con)ter um lado de autoajuda, mas até isso fica muito curioso. O marido freqüenta um grupo de terapia de apoio para maridos violentos. A cena parece de um desses grupos reais – se são todos atores, a diretora é melhor ainda (ou teve uma Fátima Toledo supimpa para preparar o elenco para ela). ‘Te Doy Mis Ojos’ me lembrou o velho ‘Targets’ (Na Mira da Morte), de Peter Bogdanovich, lembram-se? A história do atirador solitário que invadia um drive-in e se escondia atrás da tela – durante a exibição de um filme de terror com Boris Karloff – para disparar contra o público. O filme é de 68. Os EUA ainda curavam as feridas dos assassinatos dos Kennedys, John e Bob, e Martin Luther King. Bogdanovich dizia que o horror da realidade era mais assustador do que o dos filmes. A violência doméstica de ‘Te Doy Mis Ojos’ também me assustou/impressionou mais do que a de ‘Encarnação do Demônio’, por exemplo, e olhem que gosto do filme de José Mojica Marins (que muitos de vocês não quiseram nem ver).