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Cultura » O homem que veio do frio (o ucraniano Loznitsa)

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Luiz Carlos Merten

19 Maio 2010 | 19h59

CANNES – Outro dia infernal aqui na Croisette. Teria sido mais ameno se não tivesse corridoi feito louco atrás de Mic Jagger, que veio mostrar o documentário ‘Stone in Exile’ na Quinzena dos Realizadores. Afinal, depois de amargar uma hora de fila ao sol, não consegui entrar porque a desorganização deu o tom do evento, onde jornalistas, integrantes do mercado e público em geral tinham se se estapear por um ingresso. Tive de fazer trabalho de reportagem, coletando informações na saída da sessão – e da Q&A (sessão de pergunta e resposta) para redigir uma nota mínima para o jornal. Fora isso, e foi desgastante, ainda estou sob o impacto da ‘minha’ palma. Fiquei chapado pelo filme russo que vi ontem à noite, ‘Schastye Moe’, ou  ‘My Joy’, Minha Felicidade, de Sergei Loznitsa. O cara é ucraniano e estreante. Filmou na Ucrânia, mas a produção é da Rússia e é como tal, um filme russo, que ‘My Joy’ participas da competição. Gostei daqueles filmes que vocês sabem. Kiarostasmi, Mike Leigh, o chadiano Mahamat-Saleh Haroun, mas tive um choque com Loznitsa, um ex-documentário que elabora seu trabalho nas bordas de uma ficção à Alexander Sokúrov com sua veia de documentarista. O filme tem alguma coisa que o aparenta com o de Takeshi Kitano. O filme japonês nãso humkaniza seus criminosos e os mostra como bárbaros que se dedicam a destruir, fisicamente, uns aos outros. Loznitsa tem um pouco isso. Sua Rússia é assustadora, um filme de terror, nos quais as pessoas, durante o comunismo ou hoje, nesta nova aurora capitalista, não tem nenhum respeito pelo outro. Como lobos, todos se matam em cena, mas tudo isso faz um sentido e Loznitsa, no limite, além de filmar5 muito bem, humaniza seus personagens, e nisso vai contra Kitano. Amei o filme russo.

Já tarde, quase uma da manhã aqui e eu vou dar um geral, só para atualizá-los. Entrevistei Takeshi Kitano, e ele foi ótimo, além de bem humorado. Comentrei que havia visto a exposição dele, ‘Gosse de Peintre’, na Fundação Carier em Paris – e o local estava cheio de crianças, que interagiam com suas obras de arte como se fossem (e são) brinquedos. Queria saber se, para ele, é divertido ou aterrorizante filmar a escalada de violência de seu filme. Ele respondeu que a violência é sempre dolorida, mas que, ao edityart ‘Outrage’ – é o título -, percebeu que em muitas cenas a reação poss´pivel ao horror que mostra é o humor, e por isso as pessoas riem, como se estivessem assistindo a uma comédia absurda, ou uma aventura cartunesca, no estilo Tom & Jerry, apenas com gente em vez do gato e o rato.

Gostei médio do Ken Loach. Como não tinha lido nada, não sabia de onde vinha o título, ‘Route Irish’. Mais um filme sobre a Irlanda, pensei comigo. Não é – Irish Route é o trecho de Bagdá que liga o aeroporto à Zona Verde e o filme é sobre a Guerra do Iraque. Ken Loach fez um thriller, o seu ‘Zona Verde’, e se é verdade que o trabalho dele é superior ao de Paul Greengrass com Matt Damon, acho que tem certas facilidades de ação, embora, no geral, o roteiro de Paul Laverty e a direção de Loach – jogando a carta de ‘denúncia’ de Costa-Gavras – sejam mais complexos, claro.

Decepcionei-me com o concorrente italiano, ‘La Nostra Vida’. Havia gostado tanto do filme anterior do diretor Daniele Luchetti, que vi aqui mesmo em Cannes, ‘Meu Irmão É Filho Único’. Não gostei muito, embora tenha cenas bonitas e a relação familiar – pai e filho, irmãos – sempre mexa comigo. ´Falo mais sobre o filme, depois, mas quero concluir dizendo que, no quadro de cotações de ‘Le Film Fraçais’, Mike Leigh é o campeão de palmas de ouro, com ‘Another Year’. São seis num total de 15 votantes. Em segundo, fica o Iñárritu, de Biutiful’, com cinco e o terceiro, surpreendentemente, para mim, é o francês de Xavier Beauvois, ‘Des Hommes et des Dieux’, com quatro (palmas). Gostei da primeira hora do filme de Beauvois, mas acho que o filme depois degringola. Nos últimos 20 e poucos anos, apenas dois filmes franceses ganharam a Palma – ‘Sob o Sol de Satã’, de Pialat, nos anos 1980, e ‘Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet, em 2008. E se o presidente do júri, Tim Burton, for sensível à militância religiosa dos frades de ‘Homens e Deuses’? Não quero nem pensar, mas será gtema para conjeturas, amanhã. Agora, vou dormir.

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