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Luiz Carlos Merten

03 Março 2008 | 14h25

Daniel Santos me dá a dica de ‘O Homem Que Veio de Longe’ (Boom!), que saiu em DVD, e me pergunta o que acho deste filme do Losey, cineasta que ele sabe que eu admiro muito. No mesmo comentário, Daniel observa que lhe parece que não gosto muito do Vittorio De Sica pós neo-realismo. Vamos por partes. Nos anos 60, Elizabeth Taylor e Richard Burton formavam o casal mais poderoso de Hollywood, mais até do que Angelina Jolie e Brad Pitt hoje. O romance começou adúltero durante a filmagem de ‘Cleópatra’, em Roma, originando mais mídia do que qualquer outro filme (ou dupla) já tivera na história do cinema norte-americano. Os críticos, naturalmente, sentiram-se na obrigação de odiar o casal Burton/Taylor, mas, com exceção de ‘Gente Muito Importante’ e ‘Os Comediantes’, mais algum outro que eu esteja esquecendo, fizeram filmes como o citado ‘Cleópatra’, que eu amo, ‘Adeus às Ilusões’, um belo Minnelli, ‘Quem Tem Medo de Virginia Woolf?’, que deu o segundo Oscar a Liz; e ‘A Megera Domada’, numa época em que ainda era possível ter esperança em Zeffirelli. Em 1968, Losey fez seu primeiro filme com os Burtons, justamente ‘O Homem Que Veio de Longe’, que adapta a peça ‘The Milk Train Doesn’t Stop Here Anymore’, de Tennessee Williams. No mesmo ano, e na seqüência, Losey fez, só com ela, ‘Cerimônia Secreta’, que é uma obra-prima (e, mais do que ‘O Bebê de Rosemary’, é a minha referência para dizer que Mia Farrow já era boa, muito boa, na fase anterior a Woody Allen.) Anos mais tarde, já nos 70 – 72, acho – Losey dirigiu Burton em ‘O Assassinato de Trotsky’, que provocou um vendaval de críticas. Tenho o maior respeito pelo diretor, que no começo de sua carreira fez um apólogo contra o racismo, ‘O Menino dos Cabelos Verdes’, lançado em DVD. Vítima do macarthismo, ele se exilou na Europa e fez filmes até sob pseudônimo (Andrea Forzano) antes de poder voltar a assinar sua obra com o próprio nome. Existem filmes do Losey que acho geniais. São tantos – ‘Entrevista com a Morte’, ‘Eva’, ‘O Criado’, ‘Estranho Acidente’, ‘Cerimônia Secreta’, ‘O Mensageiro do Amor’ (The Go-Between), ‘Cidadão Klein’ e ‘Don Giovanni’, que, na minha ignorância, ouso dizer que é o melhor filme-ópera do cinema. Não creio que ‘O Homem’ seja o melhor Losey, embora trate de temas – a morte, o dinheiro, as relações de poder no sexo – que eram caros ao grande cineasta. Faz tempo que não revejo o filme, mas guardo dele algumas lembranças muito fortes. Elas são ligadas principalmente ao visual – Losey tinha aquele grande diretor de arte, Richard MacDonald, que criou um cenário fantástico para ser a casa dessa milionária que vive exilada na Sardenha. As relações são totalmente corrosivas (Noel Coward faz um velho gay e, como a jovem Virna Lisi em ‘Eva’, Johanna Shimkus é sacrificada nos jogos dessa gente poderosa que não tem ética nenhuma), mas o que não esqueço são os movimentos ritualísticos da câmera de Douglas Slocombe (tenho certeza de que era ele). Anos mais tarde, até escrevi na coluna de ‘Filmes na TV’ do ‘Estado’, que Murilo Salles repetia aqueles movimentos no apartamento vazio em que se escondiam pai e filho em ‘Nunca Fomos tão Felizes’, que sempre me pareceu um dos grandes filmes brasileiros pouco valorizados nos anos 80. Mera coincidência. Murilo me confessou certa vez que Losey era um diretor que conhecia pouco, ou nada. Ihhhh, o post ficou muito grande. Continuo sobre o De Sica daqui a pouco.