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Cultura » O homem que Truffaut amava odiar

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Luiz Carlos Merten

20 Junho 2008 | 00h35

Passei uma quinta-feira sabática, mas não foi intencional. Foi por força das circunstâncias. Havia saído um pouco mais cedo do jornal na quarta-feira à noite, para jantar com amigos comemorando o aniversário do Alessandro Giannini. Ontem pela manhã, cheguei cedíssimo no jornal com diversos textos para redigir e, às 9h30, havia me comprometido de chegar na Reserva Cultural, onde, às 11 horas, deveria mediar a coletiva dos artistas convidados do 1º Panorama do Cinema Francês no Brasil. O vôo atrasou e, como conseqüência, a coletiva também atrasou. Consegui chegar no jornal somente depois das 4 da tarde, com novos textos para redigir e às 6 já deveria sair de novo para um debate sobre Robert Altman no CCBB. Não contava que uma equipe da TV Cultura me estivesse esperando para gravar um depomento para um documentário deles sobre Fernando Meirelles. Foi um dia bem agitado, mas produtivo. Acho que o debate sobre Altman ficou legal, mas isso algum de vocês, se lá estivesse, é que poderia (e até deveria) opinar. Na correria, não tive tempo de postar nada sobre Jean Delannoy, que morreu centenário. Estava saindo para a coletiva do Panorama quando o Bira, meu colega Ubiratan Brasil, me informou. Delannoy nasceu em janeiro de 1908, o que significa que ultrapasssou a barreira dos cem anos. Nos anos 50, ele foi, talvez, o mais odiado dos representantes do cinema de qualidade que Truffaut fustigou em seu célebre texto que virou carta de intenções da nouvelle vague. O caso de Delannoy é interessante e merece análise. Com ‘La Symphonie Pastorale’, ele recebeu o Grand Prix no Festival de Cannes – numa época em que ainda não havia a Palma de Ouro – e Michèle Morgan foi a melhor atriz do evento. Com ‘Tant Qu’Il y Aura des Hommes’, foi premiado em Veneza e Berlim, e talvez seja um caso único de filme que recebeu prêmios importantes em dois festivais de primeira linha. Em sua enciclop[édia de cinema, Roger Boussinot defende a tese de que Truffaut e a nouvelle vague (em geral) detestavam em Delannoy o que lhes faltava – domínio técnico. Ele foi um técnico prodigioso, mas foi também o mais gélido e acadêmico dos diretores e a gota d’água foi quando, em 1961, em plena era da nouvelle vague, recebeu o Grande Prêmio do Cinema Francês por sua ‘Princesa de Clèves’, adaptada do romance de Madame de Lafayette, considerado o marco da literatura psicológica na França. Jean Tulard, em seu Dicionário de Cinema, salva alguns filmes de Delannoy – ‘Sinfonia Pastoral’, por certo, que ele adaptou de André Gide, e também o seu Jean Cocteau (‘Além da Vida’/’L’Eternel Retour)) e o seu Sartre (‘Les Jeux Sont Faits’), mais os dois Simenon, com Jean Gabin na pele do inspetor Maigret, ‘Assassino de Mulheres’ e ‘O Castelo do Medo’. Como assinala Tulard, houve, em relação a Delannoy, escesso de honrarias de um lado, e de injúrias, de outro. Conta a lenda que, mesmo sendo alvo principal da nouvelle vague, ele nunca deixou de ser afável nem solidário com os jovens cineastas. Pode ter sido por isso que chegou aos cem anos. Viver, afinal, também é uma arte. Delannoy deve tê-la praticado, para chegar tão longe.