Estadão - Portal do Estado de S. Paulo

Cultura

Cultura » O homem que tocou o mal e salvou o mundo

Cultura

Luiz Carlos Merten

07 Abril 2008 | 13h42

LOS ANGELES – Viajei ontem o dia inteiro e cheguei hoje de madrugada a Los Angeles para fazer, a tarde, as entrevistas com o pessoal de `Redbelt`. Ao chegar a Nova York, estava na fida da imigracao quando soube, pela TV, que Charlton Heston havia morrido. Confesso que fiquei triste, mais ateh do que poderia imaginar. Sei que ele fez um filme depois – fui visita-lo no set, em Manaus -, mas pode ser que a ultima imagem de Heston, perante uma camera de filmar, fique sendo a do velho que se arrasta em `Tiros em Columbine`. Michael Moore foi duro com Charlton Heston. Afinal, ele era o presidente da Associacao do Rifle dos EUA e o tema do filme era justamente a fascinacaoh (e o perigo da fascinacaoh) dos americanos pelas armas. O curioso eh que Heston, nos anos 60, usou seu prestigio, como o grande astro que era, para apoiar a campanha de controle de armas do presidente Lyndon B. Johnson, apos os assassinatos de John e Robert Kennedy e Martin Luther King. Heston foi um icone, uma lenda. Faz parte das minhas mais profundas lembrancas cinematograficas. Amo-o em `Furia do Desejo` (Ruby Furia) – fico sempre em duvida se o titulo em portugues naoh eh `Furia do do Destino` -, e tambem `Da Terra Nascem os Homens`, de William Wyler; `A Marca da Maldade`, de Orson Welles; `El Cid`, de Anthony Mann; `O Senhor da Guerra`, de Franklin Schaffner; `Juramento de VIngan;a` (Major Dundee), de Sam Peckinpah; `E o Bravo Ficou Soh` (Will Penny), de Tom Gries; e `O Planeta dos Macacos`, o primeiro da serie, de novo com Schaffner. Citei todos e naoh lembrei de `Ben-Hur`, que deu a Heston seu unico Oscar, de novo com Wyler, em 1959. Welles dizia que ele era o homem mais doce e decente com quem havia trabalhado e Heston abriu maoh do salario para que Peckinpah pudesse concluir `Major Dundee`. Ele proprio fez piquete na porta de um cinema no Sul dos EUA, por volta de 1960, protestando contra a segregacaoh racial e pelos direitos civis dos negros. E, entaoh, no comeco dos anos 80, com Reagan, ele se tornou republicano de carteirinha e, assim como antes militara contra as armas, passou a militar a favor delas. Heston virou o demo da esquerda. Aquilo que Michael Moore fez com ele foi canalhice, mas foi, como se diz, por uma boa causa. Terah sido mesmo? Hah seis anos Heston assumiu que estava com Alzheimer. Viveu 64 anos com a mesma mulher, Lydia, que estava a seu lado, na morte. Marlene Dietrich dizia, no final de `A Marca da Maldade`, alguma coisa do tipo `Importa o que a gente diz sobre um homem, apos sua morte?` Confesso que estou aqui emocionado, falando sobre Charlton Heston. Deveria odia-lo, talvez, por seu `direitismo`, mas soh o que me vem eh a cavalgada no final de `El Cid`, o heroi morto e amarrado ao seu cavalo, ao som daquele orgaoh de arrerpiar da trilha de Miklos Rosza. E antes disso, no mesmo filme, o dialogo que Mann e seu roteirista, Philip Yordan, buscaram em Corneille – `A moi, comte, deux mots`… Quando voltar ao Brasil, na quinta, em melhores condicoes, quero voltar a falar de Charlton Heston. O homem que tocou o mal e salvou o mundo (quantas vezes?). Tirando o acrescimo de `quantas vezes?`, a ultima frase, que dah titulo ao post, eh da materia de hoje do `The New York Times` sobre Heston. Perdoem-me o plagio, mas estou dando o credito. E a frase me pareceu linda. Heston realmente tocou o mal, mas eu lhe devo demais no cinema para perder meu respeito por ele.