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Cultura » O homem que enganou Hitler

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Luiz Carlos Merten

16 Fevereiro 2011 | 16h49

BERLIM – Tiago Mata Machado não gosta da ideia de que deveria ter defendido melhor seu filme ‘Os Residentes’, no Q&A, pergunta e resposta, que se seguiu  exibição oficial, ainda há pouco. O filme é difícil, O apresentador fez uma pergunta imensa que Tiago respondeu confundindo ainda mais a plateia, já um tanto desnorteada. Mas Os Residentes foi bem aplaudido e o público ficou até o fim. A debandada ocorreu durante o debate que não houve. Ao contrário das coletivas, os Q&A, após as exibições oficiais nas seções paralelas costumam ser assim. Esvaziam-se rapidamente. O dia hoje foi estranho na Berlinale. Começou com o filme turco ‘Our Grand Despair’, de Sezfi Teoman, sobre dois amigos solteirões que ficam encarregados de tutelar uma garota que perdeu os pais. O diretor e os atores meio que tomaram como ofensa pessoal o fato de metade dos jornalistas presentes na coletiva terem achado o par gay. Os personagens são amigos do peito, vivem juntos, gostam das mesmas coisas, comem-se com os olhos, mas, para garantir, jogaram no lixo a chave do armário, para não correr o risco de sair de dentro dele. O filme é simpático, rohmeriano. Os homens olham com nostalgia para a jovem – desejo? Ou será simplesmente o sentimento de perda, de algo a que renunciaram? Logo na sequência de ‘Our Grand Despair’ veio o filme mais inesperado desse festival. Na seleção oficial, mas fora de concurso. ‘Meu Melhor Inimigo’, de Wolfgang Mernberger, é homônimo do documentário de Werner Herzog sobre sua parceria com o ator Klaus Kinski. Aqui, são dois amigos de infância – um aristocrata judeu, filho de um grande galerista de Viena, e o filho da empregada. Os nazistas estão anexando a Áustria, o filho da doméstica veste o uniforme dos SS. Manda os antigos patrões para o campo de concentração, mas é forçado a trazer o filho (Moritz Bleibtraub) de volta porque Hitler quer dar a Mussolini, como signo de união, um desenho original de Michelangelo em poder do velho galerista. Seguem-se quiprocós dignos do mais mirabolante folhetim. O prisioneiro assume o lugar do seu carrasco, cópias falsas do desenho assumem o original até a surpresa da derradeira cena. O título, como já disse, é ‘Meu Melhor Inimigo’, mas poderia ser ‘O Judeu Que Enganou Hitler’. Bem – se Cannes pode mostrar ‘Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal’, por que Berlim não teria o direito de projetar ‘Mein Bester Feind’? Não é, certamente, cinema de arte, mas um grande festival, e a Berlinale é um grande festival, tem compromissos com o mercado, também é uma vitrine de exibição. E o filme não é de todo ruim. Diverte e tem ideias, talvez discutíveis, mas que o cinema, muito menos o de ação, fundado em clichês, costuma propor. O judeu como herói, despido de seu tradicional papel de vítima. O judeu que, num golpe de audácia, assume o papel de seu carrasco, sem perder a humanidade, e o proletário que não teve outra chance de ascensão senão vestindo os coturnos do Reich. Bleibtrau, vestindo o uniforme de nazista, diz que consegue entender a fascinação que ele exercia sobre seu oponente. O outro rebate. Diz que, como judeu, ele é um loser, perdedor, nato. Será? Se fosse assim, provavelmente não haveria filme. Confesso que me diverti mais do que com o ‘Walkiria’ de Tom Cruise (e Bryan Singer). O festival vai chegando ao fim. Temos mais dois dias de competição e, no sábado à noite, a entrega dos prêmios – o Urso de Ouro para ‘Nader and Nisim, a Separation’, de Asghar Faradi, o de Prata, de melhor direção, para Bela Tarr, por ‘O Cavalo de Turim’ – mas poderia ser o contrário, por que não?. Já reservei meu ingresso para ver amanhã a cópia restaurada de ‘Taxi Driver’, Motorista de Táxi, de Martin Scorsese. Agora, vou para a coletiva de ‘O Discurso do Rei’, com o diretor Tom Hooper e Colin Firth, que vai levar o Oscar de melhor ator. Doze indicações para ‘O Discurso’, dez para ‘Bravura Indômita’, True Grit. E o melhor filme, ‘A Rede Social’? E o ‘Inception’, A Origem, que nem indicado foi para melhor diretor, Christopher Nolan? Conversava há pouco com José Carlos Avellar. Concordamos que o grande filme dessa disputa é ‘A Rede’. Ele ainda acredita que o filme poderá surpreender, na linha de chegada. Gostaria de acreditar nisso, mas os indicadores…