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‘O Homem do Prego’

Luiz Carlos Merten

26 Janeiro 2010 | 16h35

TIRADENTES – Há quase três anos, em abril de 2007, fiz um post intitulado ‘A Proósito de Rod Steiger’, no qual falasva sobre ‘O Homem do Prego’. É o meu Sidney Lumet favorito, mais do que ‘Serpico’ e ‘Um Dia de Cão’, ambos com Al Pacino; ‘Rede de Intrigas’, sobre os bastidores da TV (de onde ele veio), com Peter Finch e Faye Dunaway; e ‘Antes Que o Diabo Saiba Que Você Está Morto’, do qual aprendi a gostar. Na época, lamentava que “The Pawnbroker’, título originmal, parecvia um daqueles filmes que haviam entrado no buraco negro. Não passava na TV, nem na paga, e eu não tinha registro de que houvesse sido lançado em DVD nos EUA, pois nunca o vi à venda em lugar nenhum. Dois comentários em posts recentes, do Laércio e do Paulo Pacheco, me levam de volta ao ‘Homem do Prego’ e seu magnífico ator, Rod Steiger. O primeiro diz que conseguiu comprar e o segundo reitera que viu. Ficou compreensivelmente siderado. LUmet já era um diretor com alguma quilometragem quando fez ‘O Homem do Prego’ e, embora irregular, sua carreira já tinha seus pináculos – o longa de estreia ‘Doze Homens e Uma Sentença’, sobre os bastidores de um júri, com Henry Fonda, e ‘Limite de Segurança’, em que contou a mesma história de ‘Doutor Fantástico’, de Stanley Kubrick, de novo trabalhando com o pai de Jane Fonda. ‘O Homem do Prego’ foi um tremendo upgrade para Lumet, que contou a história desse homem que sobreviveu aos campos de extermínio dos nazistas, na Europa, e se estabeleceu em Nova York com sua loja de penhores. Sol é seu nome e não existe sujeito mais sombrio. Sol já morreu, por dentro, e agora, totalmente destituído dee humanidade, depois de perder a família, humilha e brutaliza os outros. O filme tem alguma coisa de ‘O Cheiro do Ralo’ – mais certo seria dizer o inverso, que o filme de Heitor Dhalia tem alguma coisa do de Lumet -, mas é muito mais complexo, até como linguagem, porque incorpora conquistas recentes (na época) de Alain Resnais na utilização do tempo e do espaço. Sol é perseguido por esses flashes do seu passado na guerra. Ao funcionário porto-riquenho, ele dá sua receita de sobrevivência – coma pão duro, bata nos filhos se estiverem chorando de fome e guarde todo o dinheiro que puder para um dia ter sua lojinha (e poder descontar nos outros). Claro que o filme não é só isso, porque seria insuportável – no sentido literal, de difícil de aguentar. O desfecho vem numa cena de grande intensidade, em que a humanidade represada de Sol vem à tona. Sempre pensei neste desfecho como ‘kazaniano’. O tema da natureza humana que se recusa a ser reprimida é dominante na obra de Elia Kazan e ele ofereceu a Rod Steiger um de seus mais belos papéis, em ‘Sindicato de Ladrões’ (On the Waterfront). Cinéfilo dee carteirinha sabe de cor o monólogo de Brando, o ex-pugilista que lamenta para o irmão, na trazeira daquele carro, que poderia ter sido grande, se Rod Steiger não o tivesse forçado a perder aquela luta, destruindo sua carreira. Rod Steiger era um ator do método e muitas vezes foi excessivo e até maneirista, mas, além de ter sido casado com Claire Bloom – que eu amava -, fez esses filmes que ninguém pode desmontar da história. O de Kazan, o de Lumet e ‘Le Mani sulla Città’, de Francesco Rosi. (Na Itália, com a mulher, ele também fez o episódio ‘Pecado à Tarde’, no filme em esquetes ‘Alta Infidelidade’, que é maravilhoso – o curta, não o longa inteiro.) Não me lembro agora se o Laércio esclareceu onde comprou ‘O Homem do Prego’. O filme saiu em DVD no Brasil? Foi importado? O importante é que Rod Steiger não é a exceção em ‘O Homem do Prego’ e o elenco impressionante tem Geraldine Fitzgerald, Juano Hernandez, Brock Peters e, não creditado, num pequeno papel como homem na rua, o jovem Morgan Freeman.

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