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Luiz Carlos Merten

10 Julho 2010 | 12h07

Tive ontem um dia ‘daqueles’. Cheguei cedíssimo no jornal, para fazer de lá a minha entrada no programa da rádio, às 8 da manhã, e depois não parei mais. Tive de ver um filme em DVD, tinha matérias para a edição do dia, para o caderno de esportes de domingo, mais a capa de segunda-feira do ‘Caderno 2’. E, claro, os filmes na TV. Como fiz em bloco – sexta e domingo na quinta-feira, sábado e segunda ontem -, meio que me perdi nas datas, mas viajei nas lembrançãs por causa de meu querido Anthony Mann. Estou quase seguro de que ‘Cimarron’ passou ontem na TV paga e segunda será a vez de ‘O Homem do Oeste’. Este último é um dos grandes westerns de Mann- e um dos grandes do cinema -, mas não foi muito bem recebido em 1958, quando foi feito. Estou falando da recepção norte-americana, porque na França ‘Man of the West’ imediatamente virou cult, idolatrado por ‘Cahiers du Cinéma’. Jean-Luc Godard escreveu um texto célebre, analisando a cena em que Jack Lord humilha Julie London, forçando-a a tirar a roupa, sob o olhar de Gary Cooper. Foram planos que o próprio Godard repetiu depois, em ‘Viver a Vida’, para mostrar a rotina da prostituta Naná (Anna Karina) com seus clientes. ‘O Homem do Oeste’ pode ter sido mal recebido na época por ser adulto demais para os padrões de 50 e tantos anos atrás. Anthony Mann antecipou-se a John Ford e Sam Peckinpah ao mostrar a transformação do Oeste (e do western). Gary Cooper chama-se Link, e não é por acaso. Ele faz a ligação entre o Velho Oeste violento e o novo, no qual se instala a civilização. Link integrava o bando selvagem de Lee J. Cobb, mas se retirou, casou-se e leva uma vida pacata e respeitável. Lee J. Cobb ressurge em sua vida, com três capangas. Jack Lord é o violento, John Dehner é o esperto. Cooper/Link tenta poupar este último porque se projeta nele. Dehner é o pistoleiro que ele seria, se tivesse permanecido na gangue. Mas a evolução não tem volta e Link vai aplicar um corretivo em Jack Lord, forçando-o a fazer um strip-tease sob o olhar de Julie London, antes do confronto decisivo com Lee J. Cobb. Nos seus western com James Stewart, Mann havia incorporado Freud à paisagem do Oeste. Ele gostava de mostrar o embate de dois homens com passados similares, mas que seguem caminhos opostos. Aqui, leva a tendência ao limite. E o filme é ‘sensual’ como raros westerns. Sem dúvida que King Vidor erotizou Jennifer Jones em ‘Duelo ao Sol’ e Fritz Lang fez o mesmo com Marlene Dietrich em ‘O Diabo Feito Mulher’ (Rancho Notorious), mas Julie London é especial. Ela era cantora, não atriz. Fez poucos filmes, e este é o melhor. Durante boa parte de ‘O Homem do Oeste’, Cooper/Link quer esquecer seu passado, mas o estupro de Julie o faz voltar ao que era – um celerado em busca de vingança. A própria personagem da mulher possui uma densidade rara. Julie faz uma cantora de saloon, personagem tradicionalmente decaída, mas o tratamento que Jack Lord lhe impõe desperta o cavalheirismo do homem do Oeste. Talvez para contentar o código Hays, o roteiro de Reginald Rose providencia uma mulher (esposa) para Cooper, para que ele não fique com Julie. E o filme passa-se numa cidade meio fantasma, deserta como uma paisagem lunar e, por isso, houve um crítico (quem?) que disse que Mann incorporou a ficção científica ao western. ‘O Homem do Oeste’ marcou a despedida de Anthony Mann do western. Ele ainda fez, em 1960, ‘Cimarron’, que se baseia no romance de Edna Ferber e não é bem um faroeste, sendo muito mais um melodrama com cenas de ação relatando a formação do Estado de Oklahoma. Cooper ainda faria ‘A Árvore dos Enforcados’, de Delmer Daves, antes de morrer (em 1961). Mann morreria em 1967, deixando inacabado ‘Os Heróis de Telemark’, que Laurence Harvey concluiu. Ele ainda foi despedido do set de ‘Spartacus’ pelo produtor Kirk Douglas, sendo substituído por Stanley Kubrick, mas teve tempo de concluir dois épicos produzidos por Samuel Bronston, na Espanha. ‘El Cid’ é um dos grandes filmes do cinema e estou disposto a ir ao inferno em defesa de ‘A Queda do Império Romano’, um épico visionário, muito melhor do que parecia em 1963. Grande Anthony Mann. Chequem o dia e horário de ‘O Homem do Oeste’. Como diz a música – vai valer a pena.