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Luiz Carlos Merten

07 Novembro 2009 | 16h12

Não estou com muita sorte. Estava acrescentand um post para falar sobre a morte de Anselmo Duarte, o texto já ia adiantado e era longo, mas eu apçertei sei lá que tecla e lá se foi minha tela. Começar de novo! Em geral mnão fico em casa, aos sábados, mas foi aqui que me encontrou meu editor Dib Carneiro Neto, ao ligar para inrformar sobre a morte de Anselmo. Meus colegas Luiz Zanin Oricchio e Ubiratan Brasil já haviam deixado uma página pronta, mas ela não estava sendo localizada. Escrevi um texto que agora não sei onde foi parar, talvez no portal do ‘Estado’, porque a página, afinal, foi encontrada. Anselmo morreu de madrugada, à 1h30, no Hospital das Clínicas, onde estava intertnado desde o dia 28, quando sofreu um AVC. Tinha 89 anos. Tive meu primeiro encontro quando Anselmo foi filmar ‘Um Certo Capitão Rodrigo’, baseado em Erico Verissimo, em Triunfo, no interior do Rio Grande. Já era jornalista de cinema e fui visitá-lo no set. Anselmo não me deu muita atenção, mas era um dia complicado. Ele filmava uma cena de combate, com muitos figurantes. Nem imaginava que, anos mais tarde, viraria seu biógrafo, para o volume da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial. Durante não me lembro quantos sábados – uns quatro -, pegava um ônibus na Rodoviária da Barra Funda e ia até Salto, onde Anselmo morava num apartamento de cobertura, junto à nascente do Rio Tietê. Conversa e gravava, para reproduzir o que me contava num texto em primeira pessoa, como é o formato da coleção. Anselmo talvez tenha sido o maior galã da história desse País, graças exclusivamente ao cinema, numa época em que ainda não havia televisão. Participou de experiências tão diversas quanto a fase áurea das chanchadas da Atlântida, no Rio, e a tentativa de instalação de uma indústria, com a Vera Cruz, em São Bernardo do Campo. Anselmno espelhava-se em Fellini. Como o mestre italiano, era mitômano, colecionando histórias sobre ele próprio. Vovê nunca sabia quando estava dizendo a verdade, mas era um grande papo. Eu adorava umas histórias de cafajeste que ele me contava, corroborando sua entrevista no ‘Pasquim’, quando contou que chegou a ser investigado como caso clínico por sua extraordinária potência – Anselmo chegava a dar dez por noite, e não eram tentativas, segundo ele. Poderia citar os filmes (‘Carnaval no Fogo’, ‘Sinhá Moça’, ‘Tico-Tico no Fubá’ etc), mas a importância maior de Anselmo, e toda a polêmica em torno dele, decorre do fato de ser, até hoje, o único cineasta brasileirio vencedor da Palma de Ouro em Cannes, por ‘O Pagador de Promessas’. O prêmio valeu sua inclusão no Cinema Novo, mas Anselmo não integrava o movimento e, para Glauber & Cia., foi sempre um estorvo que um ator e diretor vindo do ‘velho’ cinema, tenha levado a Palma. Poucas vitórias foram tão aviltadas. Anselmo só teria ganhado porque o júri, integrado por François Truffaut, não conseguia se decidir entre os grandes que, naquele ano, participavam da competição (Antonioni, Bresson, Buñuel, Cacoyannis etc). Ele me contou sua luta para fazer ‘O Pagador’ como queria. O dramaturgo Dias Gomes não aceitava suas mudanças na historia, o produtor Osvaldo Massaini queria Mazaropi no papel de Zé do Burro. Já pensaram? Mais tarde, ao voltar ao Brasil para ser homenageado por sua Palma, ele tinha de engolir o riso de escárnio e as piadinhas de colegas e críticos invejosos. Seu filme seguinte foi outra adatação teatral, ‘Vereda da Salvação’, baseado na peça de Jorge de Andrade. O filme foi a Berlim e Anselmo, por pouco, não ganhou o Urso de Ouro – seu inimigo no júri foi um jornalista brasileiro que fazia campanha por ‘Alphaville’, de Godard. Anselmo era um homem amargurado. Considerava-se injustiçado. A falta de apoio lançou sua carreira no buraco negro e ele fez filmes que, para seus detratores, somente confirmavam que a Palma havia sido um acidente, totalmente injusto, de percurso. Tenho a impressão que Anselmo se pacificou no fim da vida. Recebeu homenagens, só não conseguiu filmar os roteiros que tinha pronto para seu grande retorno. Não chegamos a ficar amigos e, na verdade, nunca mais o (re)eencontrei, depois do livro. Houve uma retrospectiva de sua obra no MIS, mas eu estava viajando. Sua morte me tocou. As histórias de injustiças mexem comigo. Revi outro dia na TV ‘Absolutamente Certo!’, primeiro longa de Anselmo, e é uma chanchada muito ngraçada, com Dercy Gonçalves em estado de graça, Odete Lara belíssima e números musicais bizarros como aquele existencialista, nada carnavalesco – Anselmo estudara cinema na França -, ‘Quem Sou Eu?’, lembram-se? ‘O Pagador de Promessas’ é forte com seu tema da oposição entre a fé simples do homem do povo e a religião instituicionalizada da Igreja e movimentos de câmera como aquele em que a máquina pega a cruz de baixo, quando Zé é colocado na madeira e a multidão invade a igreja para que ele realize, na morte, sua promessa. E tem o elenco – Leonardo Villar, Glória Menezes, Geraldo del Rey, Norman Bengell. Estou aqui viajando na lembrança… Para concluir este post sobre nosso homem da Palma de Ouro, quero lembrar seu maior papel – o policial sádico de ‘O Caso dos Irmãos Naves’, de Luís Sérgio Person. Jean-Claude Bernardet me disse certa vez que, diante da morte, a gente perde o senso crítico e fica sentimental. Muitas coisas passam a ser perdoadas. Talvez eu esteja sentimentalizando a morte de Anselmo Duarte, mas esse cara, literalmente, foi foda.