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Luiz Carlos Merten

27 Agosto 2007 | 15h26

Alguém me cobrou outro dia uma palavra sobre O Grande Chefe. Não havia visto o filme de Lars Von Trier – acho que nem estava em São Paulo quando estreou. Vi ontem. Achei um porre. Lars Von Trier quis criticar o conceito de poder na sociedade globalizada. No filme dele, o dono de uma firma dinamarquesa quer-se manter incógnito e cria a figura desse chefe que mora nos EUA. Um determinado negócio torna necessária a presença do chefe e ele, para manter o anonimato, faz-se representar por um ator. A idéia é dupla e até triplamente interessante. Vivemos numa sociedade da imagem e fazer representar o poder por um ator já equivale a uma crítica do cineasta. Mas Von trier quer mais – ele sabe que a autoridade pode ser, ou é, uma posição que as pessoas outorgam a outras. Todo o princípio de representatividade da política vem daí – o poder outorgado (mas que alguns usurpam). Parece interessante, mas eu confesso que achei O Grande Chefe, antiilusionista ou não, um dos filmes mais irritantes que vi ultimamente. Saí tão aborrecido que cheguei até a pensar no Lars Von Trier como uma farsa. Gosto muito de um filme dele, Ondas do Destino, que evoca Dreyer por meio de uma mise-en-scène moderna (e suntuosa). Acho a questão do digital em Dançando no Escuro – e do Dogma, em geral – muito marqueteira, mas me encantei com Dogville e Manderlay. No novo filme, para falar de um poder outorgado, Lars experimenta mais uma vez. Não me peçam para explicar tecnicamente, mas o filme foi feito num sistema que acopla a câmera ao computador e de tal forma que a máquina pode modificar (na verdade, modifica) o plano filmado. Na cabeça do autor, isso faz parte do conceito do filme, aliás, é o conceito que ratifica o que ele está dizendo sobre a chefia na economia e na geopolítica atuais. Não sei por vocês, mas, de minha parte, não é que seja um filme menor de um grande diretor. É mais um filme de um autor supervalorizado que me cansa. Antônio Gonçalves Filho, meu colega no Caderno 2, tem razão. Há hoje uma ditadura dos autores e Lars Von Trier é um dos favorecidos por ela. Já é mais do que tempo de começar a falar mal das porcarias que ele faz. Senão, ele fica brincando de gênio para sempre.