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Luiz Carlos Merten

23 Maio 2012 | 12h01

CANNES – Longe de mim querer transformar o Alisson em saco de pancada, mas quando ele me força a caprichar na ortografia e acrescenta que não está lendo um texto de MSN, minha vontade é dizer – mas não leia, meu querido. Não vou ficar nem um pouco agastado por isso. Já expliquei mil vezes que, nas condições de momento, muitas vezes é o jeito que consigo editar posts de urgência. De volta ao hotel, como agora, posso colocar todos os acentos do mundo, mas a emoção daquele instante, que já foi, se terá perdido, com certeza. Essa sensação de perda ficou comigo no final de On the Road. A amizade rompida de Sal e Dean e a sua transformação, ou recuperação, por meio da literatura. Queria me sentar à beira do caminho e chorar todas as lágrimas do mundo – as minhas lágrimas -, mas já tinha de ir correndo para a coletiva e depois para nem mais sei o quê. Redigi um monte de matérias para a edição de amanhã, gravei, com a Tainá, para o portal do Estado, e aqui estou, antes de correr de volta ao palais para assistir, em presença de Agnès Varda, à versão restaurada de ‘Cléo das 5 às 7’. Estará presente a atriz Corinne Marchand? Está viva? Corinne, que parecia bem alta, é uma valquíria no filme de Varda, nestas duas horas em que espera o resultado do exame que vai dizer se tem câncer ou não. Um filme sobre arte e reaslidade, sobre vida e morte, nas bordas do documentário e da ficção. Era jovem, quando assisti ao filme pela primeira vez, nos anos 1960, em Porto. Difícil me lembrar do que pensei, ou senti, exceto que a experiência foi forte, como seria de novo em outro filme de Varda, o impressionista Le Bonheur, As Duas Faces da Felicidade. Cannes termina sempre por propor essas viagens para os mais velhos. Paulo Sérgio Almeida achou graça porque, ao encontrá-lo, depois da coletiva de On the Road, me saiu uma coisa bem espontânea. Está todo mundo louco aqui pelo Haneke, que está virando o Árvore da Vida (de Terrence Malick) deste ano. O que eu disse, e me desculpem, é que quero mais que os velhos de Haneke se f… (apesar da marsavilhosa Emmanuelle Riva). Estou muito mais impactado pelos jovens de Walter Salles, pelo furor de viver e o vazio existencial de Dean Moriarty em ‘On the Road’. Meus filmes preferidos aqui não mudaram. Continuam sendo o der Christian Mungiu, ‘Beyond the Hills’, o de Alain Resnais, talvez um pouco menos, Vous n’Avez Pas Encore Rien Vu, e agora o de Walter Salles, talvez um pouco mais, On the Road. E o de Bertolucci, claro. Ontem, havia visto o garoto de Io e Te passeando aqui na rua. O guri é genial, embora tenha um nome complicado para quem quer ser ator, Jacopo Olmo Antinori. Hoje não resisti e esperei um pouco pelo início da coletiva de Io e Te só para rever Bernardo. Uma rampa foi montada no acesso à sala de coletivas só para que ele descesse por ela em sua cadeira de rtodas, que opera sozinho. Há, por coincidência, uma cena em que Emmanuelle Riva aprende a manejar a cadeira de rodas em Amour. Berrtolucci nos fizera rir no ano passado. Depois de tantos travellings em filmes, disse que a sensação de estar confinado na cadeira, após uma cirurgia mal sucedida de coluna, é a de se haver transformado, ele próprio, num homem/travelling. Bertolucci sabe o belo filme que fez. Como Walter Salles, mas em outro contexto, admitiu que Io e Te foi feito num estado de improvisação permanente com Jacopo e Tea Falco. Os jovens adaptavam/reinventavam, a cada cena, os diálogos que ele co-escreveu e deve ser por isso que o filme parece tão verdadeiro. Tea é uma deusa – a nova Liv Tyler? Para encerrar esse post cheio de reminiscências, o Cinema da Praia tem mostrado muitas aventuras de James Bond – e uma coimédia de Philippe de Broca, do alvorecer da nouvelle vague, que já tem mais de 50 anos e não perdeu o encanto. Le Farceur, O Gozador, com Jean-Pierre Cassel. Eu amava o cinema de De Broca. O Amante de Cinco Dias, com Cassel e Jean Seberg, até hoje rola no meu imaginário. Rever fragmentos do filme, na tela da praia, foi um dos meus prazeres secretos em Cannes, 2012.

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