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Cultura » O gênio de Velásquez

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Luiz Carlos Merten

22 Outubro 2006 | 12h33

‘Gostei demais das entrevistas que pude fazer com Dustin Hoffman e Emma Thompson em Londres, pelo filme Stranger than Fiction. Ela, além de atriz, é autora e rende sempre um papo inteligente, mas tenho de confessar que me impressionou como está bonita! E tem brilho no olho, é calorosa, alguém que sabe o mundo em que a gente vive mas não perdeu a humanidade nem a esperança. Dustin também é assim. Os dois dizem coisas muito interessantes sobre a arte, a guerra, a corrupção, a ética. Will Ferrell, que estrela Stranger than Fiction, foi outro papo legal, mas numa linha mais light, sem o estofo dos outros dois. O trio, mais o filme, claro, foram os motivos que me levaram a Londres, mas com o perdão da Sony, que me convidou, quero dizer que fiquei siderado com a exposição do Velásquez na National Gallery. Anos atrás, fui ver uma exposição do Van Gogh no MoMa, em Nova York. Estava lá, caminhando e parei na frente do Girassóis. Tive uma coisa. Não conseguia controlar, as lágrimas vieram só de olhar o quadro. Foi uma correria no museu – traz um pouco d’água, ele está passando mal. Dessa vez não cheguei a tanto, mas logo na abertura, na primeira sala, à direita, o segundo quadro é o do São João Evangelista, que olha para o alto, como quem acaba de ter a revelação. Olhei aquilo e me bateu como o Van Gogh. O olhar do cara, o gesto com a mão, a forma como ela segura o Evangelho. Na mesma sala, do outro lado, tem outro quadro genial, Os Três Músicos, de 1630 (o do Evangelista é de 1617), no qual um dos artistas retratados tem o mesmo êxtase. A arte e a religião como fatores de elevação. A exposição é muito bem montada. Não consegui descobrir a curadoria porque não aparecia no texto de abertura, mas acho que o material exposto naquelas quatro salas não revela apenas (o que já seria muito) a arte do Velásquez como uma das supremas realizações do gênio (e do gênero) humano. Existe mais ali dentro – uma construção do olhar que me apanhou. Os primeiros quadros vão expressando o êxtase e, depois, quando Velásquez vira o pintor da corte de Felipe 4º na Espanha, pintando todos aqueles infantes (e as infantas, principalmente) o olhar vai ficando mais formal, de certa forma mais ausente. Só os anões que ele retratou colocam um enigma do olhar. E após todos aqueles nobres, retratados como se o pintor, antecipando-se à fotografia (pelo realismo), quisesse captar também a alma, vem, como obra da maturidade, o retrato do Esopo. O grande moralista, o escultor das fábulas, é um velho austero e desencantado. Sempre me impressionou aquele Velásquez que se projeta nas Meninas, mas eu acho que a construção do olhar na grande mostra da National Gallery, em Londres, é a do olhar dele. Não é só uma maneira de olhar o homem, ou o mundo, ou de refletir sobre a arte. É a forma como o artista se integra à sua criação. Tinha lá, no mesmo museu, uma exposição do Cézanne, também maravilhosa, e outra do acervo, De Manet a Picasso. Cada uma mais impressionante que a outra, mas como a do Velásquez, não há.

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