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O filme já era, mas vale o post

Luiz Carlos Merten

26 Março 2015 | 16h15

Havia redigido este texto para o portal do Estado porque, no início da tarde, ia passar na TV O Desafio das Águias. Cheguei agora na redação e fui informado de que ninguém recebeu o texto, embora ele esteja na minha caixa de enviados. Embora os possíveis interessados não possam mais ver o filme, vou transformar o texto em post. Você vão perceber o sentido da ‘homenagem’.

Brian G. Hutton foi o ídolo da redação da revista Cinema Retro, que se autodefine como ‘the essential guide to movies of the 60’s and 70’s’, o guia fundamental do cinema dos anos 1960 e 70. Quando Cinema Retro lançou, em 2009, a Movie Classics Edition, o filme escolhido foi de Hutton, O Desafio das Águias/Where Eagles Dare, de 1969, com Richard Burton e Clint Eastwood. Justamente O Desafio das Águias é a atração desta tarde do TCM. Passa às 14h30 no canal de clássicos.
Brian G. Hutton morreu em agosto passado, poucos dias depois de sofrer um ataque do coração, em julho. Ele deve sua fama preferencialmente a dois filmes de guerra – o citado O Desafio das Águias e Os Guerreiros Pilantras, que fez na sequência, ambos com Clint Eastwood, e o segundo também com Donald Sutherland. Kelly’s Heroes, título original, é uma paródia, não só dos filmes da 2.ª Guerra, mas também de western. Pegando carona no fato de que Clint interpretara os primeiros spaghetti westerns de Sergio Leone, as obras definidoras do gênero, Hutton cria várias cenas que não têm nada a ver com a tradição de guerra e têm tudo a ver com o faroeste. Trata-as com humor. O público da época adorou. Os críticos, nem tanto. Donald Sutherland usa gírias e tem um comportamento neo-hippie. Alguns críticos reclamaram da liberdade do diretor, mas só pode ter sido por preconceito, porque no mesmo ano surgiu MASH, de Robert Altman, em que Sutherland radicalizava o comportamento libertário e, dessa vez, a crítica amou.
Apesar do sucesso de público de O Desafio das Águias e Os Guerreiros Pilantras – Quentin Tarantino deve muito a ambos para o seu Bastardos Inglórios – e também das ousadias de seus melodramas psicanalíticos com Elizabeth Taylor (X, Y, Z e Vigília nas Sombras), Hutton viveu sempre às turras com os executivos dos estúdios. Cansado das interferências, abandonou Hollywood e a carreira. Ainda fez mais um ou dois filmes – para TV –  nos anos 1980 e 90, mas, sob a alegação de que o mundo precisava mais de encanadores do que de cineastas, mudou de carreira (e de vida). Foi ser ‘plumber’. Nunca mais deu entrevistas. Quer dizer, deu uma, para Cinema Retro, que o tinha em seu panteão e nunca desistiu de lutar pelo reconhecimento que ele merecia/merece.
Hollywood fez muitos e até grandes filmes de guerra. Alguns desmistificadores, outros que celebravam o heroísmo. Os anos 1960 viram surgir uma nova concepção da aventura de guerra. Em Os Doze Condenados, de 1966, Robert Aldrich beneficiou-se da nova liberdade adquirida com a extinção do Código Hays – que regulava o uso da sexo e da violência -, para propor outra coisa. Não apenas seus personagens eram desbocados e falavam um linguajar chulo como eram todos marginais de carteirinha. A violência da guerra passava a ser o território legítimo para que eles liberassem a própria violência. O Desafio das Águias vai um pouco por essa linha.

Um general aliado é sequestrado por alemães e levado para uma fortaleza nos Alpes. O cara participou do planejamento da operação do Dia D e é só uma questão de tempo até que os nazistas consigam extrair dele o que sabe. Forma-se um comando para o resgate do cara. O desafio das águias é penetrar no ninho do inimigo. Richard Burton, Clint, mas o problema é que, como em Os Canhões de Navarone, de J. Lee Thompson, de 1961, podem existir traidores dentro do grupo. Mais que isso, lá pelas tantas e de ambos os lados, ninguém está muito certo de quem é quem, ou em quem confiar. Além do carisma dos astros, o filme tem esse diretor fantástico. Brian G. Hutton era bom demais. Já é tempo, como pede Cinema Retro, de lhe fazer justiça.